Amigo até na hora da morte
Colunas, Dagoberto Waidzyk / 1 de dezembro de 2011 11:07
Nessa vida, pelo menos de duas coisas o homem não escapa: pagar impostos e morrer. Da morte ninguém sabe quem está na vez.
Em Irati, quando se passa pela frente da capela mortuária Santa Rita ninguém quer estar no placar de anúncio, pois ali está o aviso de quem é o mais novo defunto.
Falando em morte um parente meu falava tão mal de sua sogra, que quando esta morreu certo amigo chegando ao velório ironicamente disse: “não sei se dou os pêsames ou parabéns para o genro”. Em que pese que a senhora falecida era uma ótima pessoa.
“Velório é uma cerimônia fúnebre, estranha, em que o caixão do morto é posto em exposição pública para permitir que parentes, amigos possam honrar a memória do defunto antes do sepultamento. É provável que este costume tenha se originado na Idade Média, na Europa, quando os copos e pratos eram feitos de estanho. A mistura de bebida alcoólica com o óxido de estanho causava uma espécie de narcolepsia. Quando um cadáver era encontrado, era deixado sobre uma mesa por alguns dias, para se ter certeza de que estava realmente morto.” Wilkipédia.
Essas cerimônias, muitas vezes, remetem a situações constrangedoras que muitos não sabem como se portar. Os amigos e parentes que ficam sofrem mais do que o que vai. Dependendo da espiritualidade, muitos permanecem serenos, sofrem, mas sabem suportar. Quando comparecemos a um velório cumprimos sagrado dever de solidariedade, oferecendo conforto à família.
Certa feita, fui a um funeral de um conhecido. Chegando ao local, amplo, uma antiga capela, havia poucas pessoas. Era ainda bem cedo. Sentamos em cadeiras de palha no perímetro da grande sala. O caixão no centro do local e ninguém próximo, talvez pelo horário. O que causou surpresa é que embaixo do esquife havia um cachorrinho, pequeno, guaipeca, malhado, marronzinho, embora faceiro, estava triste. Passava-se o tempo e o cão não saía do local. Diversas vezes gania. Algumas pessoas mais chegadas, meio constrangidas, tentaram espantar o animal, que se afastava mais logo voltava. Ao que parecia era bem afeiçoado ao defunto.
Uma pessoa atraiu o animal para fora do local com um pote de água e um pouco de comida. O bichinho saiu por um tempo, contudo logo voltou e, deitou, aborrecido, embaixo do caixão.
A cena era cômica, mais comovente, pois notava-se que o bicho era um fiel amigo do finado, demonstrando que muitos animais são verdadeiramente companheiros fieis dos seres humanos, e que a recíproca, muitas vezes não é realidade. Mesmo entre os seres humanos em diversas vezes, tal situação não ocorre. Eu havia saído antes, mas certamente o cãozinho acompanhou o féretro de seu amigo até sua morada final. O que foi feito do pobre animal não soube, mas que o mesmo emocionou muita gente sensível, isso emocionou.
Fica uma reflexão daquela passagem, de como os seres vivos deveriam agir, com amizade, ternura, amor em qualquer situação de nossa rápida passagem por essa vida.
Dagoberto Waydzik
Publicado na edição 597, 30 de novembro de 2011.
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