Do Foto Mariano ao Bar do Rui
Dagoberto Waidzyk / 15 de dezembro de 2011 16:42
Alexandre Jesewski, fotógrafo, gaúcho, caçador, pescador e um dos primeiros bons assadores de costela de Irati.
Alexandre era uma figura folclórica. Amante da natureza e dos cães. “Dizedor na lata” do que lhe viesse na telha, principalmente depois de um amassa bico.
Fotografou junto com sua competente esposa Ivete, inúmeros casamentos, e primeiras comunhões, de várias gerações de iratienses. Morador da principal rua de nossa cidade, nunca se entendia como entrava no estreitíssimo portão da sua garagem com uma velha rural ou com um Opala Comodoro. Passava nas laterais, com uma folga de não mais que um palmo de cada lado, porém ela entrava lá, mesmo depois de umas canjebrinas.
Alexandre tinha um cão, da raça Cocker Spaniel, chamado Haley, que o acompanhava em todos os lugares. Se alguém ralhasse com o cãozinho estava feita a encrenca. Bem como se tocassem no homem o cão reagia. Um dia Haley morreu. O dono, inconsolável, chorando, às 6 horas da manhã, levou o corpo do cão na casa do amigo, que lhe havia dado o animal. Acordou toda a família e ficou sentado no meio-fio, com o porta-malas da rural aberta, fazendo o velório do bichinho. Dizia: vejam o que vocês fizeram dando-me esse animal… Era muito triste ver aquele homenzarrão chorando como uma criança pela morte de seu inseparável amigo Haley. Era um grande homem com alma de criança.
Dentre as várias heranças que o Alexandre (Foto Mariano, como era conhecido) nos deixou, talvez o que ainda mais marca é a receita da costela assada, passada para o seu amigo Rui Borges, que até hoje nos brinda com a deliciosa iguaria. Alexandre parecia ser rude mas era uma boa alma. Não teve filhos, mas amava os animais, até aniversário de cães ele fazia. Tudo para assar uma costela, beber uma cervejinha e reunir amigos.
Rui Borges, homem de família numerosa e tradicional de Irati. Parecendo ser pessoa brava, mas como o Alexandre uma boa alma. Há muitos anos vem assando costela para os iratienses. Um dos pratos que nos traz orgulho, tamanha a excelência da iguaria. Botafoguense, bem-falante, pai de família, a qual trabalha com ele e dão continuidade a famosa costela assada.
Alto astral é o que não falta no atual bar e restaurante do Rui. Um dos problemas é que o estabelecimento localiza-se em frente a Delegacia de Policia de Irati. Toda terça-feira tem um saboroso carneiro assado e, nas quintas e domingos, a famosa costela. Imaginem como ficam os presos sentindo o cheiro do assar nesses dias. Nas quintas, do meio-dia às 10 horas da noite, toda semana é como se aumentasse a pena dos detentos. Pura tortura. Também suplício dos jovens jogadores do Iraty Sport Club, que têm uma república a 50 metros do restaurante, e ficam “concentrados”, loucos para chegar ao bar.
Certa feita, Rui já tinha entregado porções de costela aos fregueses que saboreavam em suas moradias e, também servido os habituais clientes da casa. Sentado, com uns amigos enquanto tomava sua merecida cervejinha, jogava conversa fora, quando lá pelas 10 horas da noite entra um trio de pessoas de fora. Sendo um da raça japonesa. Entram e fazem uma baita festa para o Rui, que não os reconhece. O japa, entusiasmado, fala: como vai Ruizão? E o Rui com a cara de espanto fica calado, meio desconfiado. Continua o nipônico: tem ainda uma costelinha para nós? E o Rui responde: tem, tem, meio gaguejando. Quando o japonês detona: vai dizer que não me está conhecendo Ruizão. O Rui do outro lado da mesa, esperto que é só ele, se estica por cima e abraça o interlocutor dizendo: “Como é que não vou conhecer meu amigo japonês?” Pelo sim, pelo não, tudo acabou como se a memória tivesse em dia, mais um périplo do famoso Rui. O que valeu é que os visitantes saborearam a famosa costela feita por ele.
E assim, contamos pequenas passagens de duas figuraças de Irati. Alexandre, que já foi para outro mundo, e Rui, que continua conosco. Salve Rui e sua família! Obrigado Alexandre por nos deixar esse legado.
Para ter um bom bar, um bom restaurante, o principal é o dono ser bom. E nós em nossa cidade podemos nos orgulhar que temos bares para todo tipo de gosto. Como disse o cartunista do Pasquin, o Miran: “se o dono do bar é chato, já azeda”.
Dagoberto Waydzik
Publicado na edição 599, 14 de dezembro de 2011.
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