Muitos dizem que Irati é a cidade que tem mais pescador “per capita”, mesmo, atualmente, não tendo um rio piscoso. Contudo, o iratiense não quer nem saber e vai atrás de rio, mar ou lagoa para praticar seu esporte preferido.
Já faz muito tempo, houve uma pescaria, mas os protagonistas dessa “história”, há essas horas, estão pescando com o apóstolo Pedro em mares mais agradáveis, penso eu.
Creio que era lá pelo início dos anos 70. Quatro cidadãos iratienses ataram uma pescaria. Entre sexta-feira até domingo, com acampamento em lona de caminhão, à beira de uma lagoa.
O ponto de encontro era a esquina da Sopaco. O horário: 4 da tarde. Chegou a rural Willis para apanhar as trochas da turma. Cobertas, materiais de pesca, objetos pessoais, visto que o motorista ficara encarregado da comida e da bebida para os dois dias e meio. Chegando ao local, um dos companheiros abre o porta malas da rural para colocar os bengos e todos olham dentro: dois engradados de tatuzinho, 30 pães d’água do Wasilewski e quatro rodelas de salame do Lares. Quando um deles perguntou: “Mas para que tanta comida?”.
A pescaria era para os lados do Pinho de Cima. Nossos conhecidos saíram em busca da aventura. Paravam em todas as bodegas que encontravam pelo caminho para dar um talagaço, dizendo um para o outro vamos tomar “a do bar” que é para economizar da nossa cachaça, senão periga faltar no acampamento, aí estamos roubados. Diga-se de passagem, que iam acampar somente por dois dias e meio.
De bodega em bodega, os 10 km a serem percorridos demorou até à boca da noite. Meio atordoados começaram a montar o acampamento. Enquanto um fazia o fogo e ligava o liquinho, outros dois esticavam a lona e o quarto resolveu armar as linhas de mão. Todo serviço acompanhado de um gole de tatuzinho. Já noite escura, ventava bastante e aquele que foi armar as linhas foi meio mal das pernas, porém jogou umas dez linhadas. Amarrou-as bem no barranco e voltou para o acampamento onde a turma já estava alta do chão. Comeu um pão com salame e, já que ia dormir mesmo, tomou mais meia garrafa de cachaça. Não sem antes anunciar que armou bem armadas as linhas, relatando que a lagoa estava cheia de ondas. Disse antes de deitar: “amanhã vocês vão revistar as linhas e tragam pelo menos cinco traíras, daquelas bem bocudas, que deve ter de monte nesse tancão”.
Roncavam de levantar a lona do acampamento. Pernilongo que os picava saía tonto, tal a quantia de álcool no sangue dos viventes.
De manhã, vai um dos gajos verificar as linhas, não antes de tomar um gole para levantar bem o espírito. Chegando onde o companheiro disse que tinha armado as linhas, coçou os olhos esgazeados, como um sonâmbulo, bebeu mais um gole do cantil e viu as linhas armadas, mas, para sua surpresa, lançadas num campo de trigo que ondulava com o vento, parecendo um grande lago, ainda mais com a visão meio turva. Mas, que foram bem armadas essas linhas, isso foram.
Essa “história” foi me contada por um médico de Irati, que jura que é verdade e, tem testemunhas, mas declino de falar os nomes, tanto do narrador como dos personagens para não cometer a injustiça de errar algum nome.
Cada pescaria, para o pescador, é uma peripécia inesquecível, imaginem essa de acampar e pescar num trigal… Os quatro protagonistas dessa história foram bons cidadãos, honrados, produtivos, que de vez em quando, como quase todo pescador, afundavam a rolha numa pescaria.
Essa é mais uma “história”, de tantas histórias e estórias que existem na nossa querida Irati.

Dagoberto Waydzik
Publicado na edição 605, 08 de fevereiro de 2012

 
 

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