Na Serra do Papuã uma das mais iluminadas regiões do município, eis a chácara do Juca Diniz ou Juca de Nha Mina. Quem conhece reconhece, expressivo ponto turístico, entre os mais relevantes. Quase desconhecido. Maneira única de produzir mimosa, a fruta na mão. Doce como olhar doce de mulher. O maior pomar de Irati, obra de arte. O Juca é o Gaudi da mimosa, cultivo diferenciado aos 85 anos, sobe em laranjeira como piá de onze, meninos dos antigos, os de hoje já não fazem ginástica. Poucos conhecem, suas Kodaks têm olhar mais profundo, o município é colorido, ver é preciso. Benedito Alves da Silva nasceu no dia de Santa Cruz, ficou Benedito da Cruz. Construtor das linhas telegráficas desde Irati até São João dos Pobres, depois Mattos Costa, no início do XX. Avô do Juca, pai de D. Guilhermina da Cruz Diniz, Benedito descobriu aquela querência. Caçava paca com Pacífico Borges. No dia de sua morte, após o retorno da missa, Joaquim Batista Diniz, marido de Nha Mina, tinha quebrado o pé, havia rixa de divisa, saiu, deu um tiro, estavam alvoroçados, vieram, o entrevero, muitos tiros, pouca munição, naquele tempo ninguém ia preso, era só desaparecer no mato, havia muita vingança. Era o ano de1926. O primeiro laranjal foi obra de Nho Benedito, caixa de mimosa de Morretes, apodreceu, mas a sementeira se fez. Plantava cana, fazia cachaça, rapadura e melado em 1918, antes e depois. Vieram parar aqui alguns pobres de Contenda e Campo Comprido. Nha Guilhermina ficou com os filhos e tocou a lida. Muito conhecida e visitada, benzia de bichas, ar, dor de dente, cobreiro, rendidura, doença de minguá na simpatia, riscava a criança no chão, cataplasma de barro virgem do mato. Muitas figuras da política queriam se aproximar. Viveu até 26 de julho de 1956, 66 anos de idade. Apenas o Juca ficou naquela serra encantada. Boa memória, o tempo fez dele profundo conhecedor da natureza e dos homens. “O índio é irmão do chinês ou o chinês é irmão do índio?”, disse certa vez. Um dia lhe perguntaram sobre um certo iratiense, ele pensou um pouco e disse, Igual anu, não pia, não canta, nao presta pra comer. Na sua chácara tem jabuticaba? Tem sim senhor! Tem caqui? Tem sim, senhora! Tem lima, limão, pêssego, abacate, ananás, figo da índia, pinhão, banana, cereja e maracujá? Tem sim, senhor! Tem sanhaços, sabiás, corruíras, cuitelinhos, gralhas, sabiás, rolinhas, cardeais, saracuras e periquitos e muitos outros. Tem um predador, não digo, ficou pejorativo. Uma cachoeira perene no meio da mata compacta. Distâncias iluminadas, azuis do oriente e ao poente até onde a vista vai. Vistas de pinturas. A mão acima dos olhos, no fundo do vale, eis o rasto da primeira e última cruzada, o cavalo de Tróia, as pirâmides de Gizé e Sacará, a Pedra Roseta, o retorno dos hebreus à Palestina, a muralha da China, São Paulo menino, São Francisco e as aves, Coronel Pires a cavalo nas picadas e vaus deste rincão. A chácara do Juca é única, sem igual, ali bem perto, na Serra do Papuã. Só há um perigo, no confronto do amarelo e verde na safra de frutas você corre o risco do queixo caído. Durante uma semana ou sempre.

José Maria Orreda
Publicado na edição 584, em 31 de agosto de 2011

 
 

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