Pedagogia da Ternura
José Maria Orreda / 22 de setembro de 2011 9:00
Os professores antigos não são esquecidos porque amavam o ensino e se interessavam pelo aluno como ser humano. Rosala Garzuze
Somos todos ainda muito imaturos. O índio considerado primitivo não castigava o filho. O hábito do castigo é da cultura europeia. O uso da palmatória era mais antigo. No período 1940/1950 em nossas escolas era comum o puxão de orelha, ajoelhar em grão de milho, anos seguintes ainda, ficar sem recreio, sem merenda, preso depois da aula, as suspensões e expulsões, diminuição de nota, excluir da sala de aula, chá de banco na sala da direção para aguardar o pito, broncas em geral etc.
Agora em 2011 a mãe que castiga o filho de seis anos por não saber ler – sem piscina, sem TV, sem vídeo game – está sem expediente. Deveria, antes de tudo, ler histórias para ele, assim como procedeu a mãe de Will Durant desde os quatro, o filho se tornou historiador genial e universal entre os grandes mestres da humanidade.
Ora, o mundo vive em processo de transformações aceleradas. E não poderia ser diferente nos paradigmas da educação. Esse procedimento de quem ama o filho usa a vara é de muito, muito antigamente. Toda doutrina pedagógica consiste uma antecipação do futuro, diz a obra Pedagogia de Nosso Tempo, (R.Nassif, 68). Isto com referência à trajetória do indivíduo (…) princípios e recursos para sua configuração pessoal (…) porque pertence à educação a qualidade de ser ajuda que facilita a passagem da indeterminação à determinação, do estado de imaturidade ao de maturidade. O futuro repetia o presente, o presente representação do passado. Mas o tempo acelerou tudo, mesmo ele próprio. Segundo Kilpatrick “O esforço humano fixa, dentro de certos limites, o que vai acontecer”. Mães e pais, educadores deste vasto mundo, ouvi esta verdade: Castigo é gesto antigo. Castigo é demonstração de força diante do confronto, meio de adaptar o outro a visão de si mesmo. Castigo não educa, não assegura hábitos, não promove, não envolve, não civiliza, não humaniza, não une, não transmite bem querer, não assegura entendimento, não produz alegria, sequer felicidade, reprime, não liberta.
Pedagogia da ternura. Pedagogia, ciência do ensino; ternura, consciência da aprendizagem. Fraqueza, debilidade, fuga e conivência não se confundem com ternura. Ao contrário, a ternura se irmana com vigor, determinação e persistência. Eis aqui o segredo da ternura! Sendo forte, não constrange; sendo persistente, não irrita, sendo determinada, não produz desânimo. Ternura é a expressão da espera do outro, sem indiferença ou descaso. Ternura é ora segurar com leveza, ora sustentar com mão forte; ouvir sem entusiasmo afetivo é a rejeição da humanidade do outro. Ternura é saber identificar as diferenças (Schettini, 2010). E mais, descortinar possibilidades. Ternura é a conquista de quem já conquistou a si mesmo, o processo educativo exige o carinho dos sábios, aproximar-se sem amedrontar, acompanhar o ritmo dos mais lentos, fortalecê-los, sem sufocar com excesso de sabedoria. O esforço e a perseverança não devem abrigar sofrimento e desconforto. A ternura desencadeia a determinação. O castigo poderá acrescentar informação, mas dificilmente formação. A plena assimilação de conteúdos programáticos na escola acontecerá na satisfação e nunca na imposição. Educar sem afeto é esculpir a face sem olhos, sem ouvidos, sem paladar e sem as sensibilidades do tato, vale dizer educação que não prepara para o mundo. (Schettini, 2010).
A relação professor/aluno, pais/filhos sem apego afetivo não assegura a existência da ternura. Acolher com alegria, estimular com segurança, orientar pelos exemplos. A criança que faz tudo o que quer, torna-se insegura e mal educada. Pedagogia da ternura é a ação que falta em muitas famílias e inúmeras escolas, onde todo processo educativo e de formação humana fica mutilado. Mas onde a ternura existe não há violência, sequer exclusão, a felicidade é plena e o aprendizado efetivo, o acolhimento, gesto de amor. Mestre(a) é aquele(a) que eleva a auto-estima de seus alunos e os estimula às difíceis tarefas dos estudos. Os grandes projetos e as grandes conquistas são gestos de ternura, sempre.
José Maria Orreda
Publicado na edição 587, em 21 de setembro de 2011
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