Nem bem, nem ben: só dita. Ficção
Colunas, Robson Miguel Camargo / 1 de novembro de 2011 16:50
Num tempo em que a ingenuidade era outra, as pastelarias eram outras e os políticos não eram os outros; num tempo em que as esperanças eram outras, os sonhos eram outros e os políticos não eram os outros. Num tempo em que as gentilezas eram outras, os vendedores ambulantes eram outros e os políticos eram os mesmos de sabe-se lá quando, a expressão “se me perguntarem se fui eu, eu nego” já existia. E foi numa dessas outras pastelarias que eu, ingênuo outro, ouvi pela primeira vez a dita expressão, incompreendendo, porque ingênuo outro, a razão de alguém negar o que acabara de afirmar. Incompreendi mas nunca mais esqueci. Até porque outras e outras e outras vezes ouvi-a mencionada, até por gente que eu gosto demais. E continuo gostando.
Como sempre ao fim da quarta fila, a dos irremediavelmente piores, tenho ouvido com certa regularidade a dita, de novo a dita, expressão “se me perguntarem se fui eu, eu nego”. Algumas até devidamente enfeitadas com uns complementos mais trágicos do naipe “mesmo sob tortura”, o que remete necessariamente à ponderação da veracidade da afirmação, por mais confiável que seja. De certo que a tortura por não dizer é maior que a tortura da confirmação do dito. E assim vamos indo entre os dizeres que não foram ditos e as coisas que não podem ser ditas porque sem seus donos; entre os venenos das coisas contadas que não deveriam e as verdades repousando nos papéis que dão conta das coisas como elas são.
Aí uma carinha de muito não vista; no soslaio do acaso e na provocação das coisas que correm acontecendo:
- Se eu te contar uma coisa você põe no jornal?
- Eu não, eu não ponho nada no jornal.
- Ué! E a que se ouviu por aí é invenção?
- Nada. Reinterpretações. Nada inventado.
- E se você ouvir de mim alguma coisa, você reinventa?
- Não. Seria plantado.
- Mas é uma coisa bem séria.
- Maracutaia?
- Coisas!
- Assim, no plural?
- Iiiiii!!! Plural? Bota plural nisso!
- Sabe do quê? Melhor fique com as tuas coisas e deixe eu ficar sem as minhas.
- Como assim? Não quer saber?
- Não. Do muito que eu não sei, pouco; e do pouco que eu sei, muito; é melhor nem saber.
- Mas eu vou te contar assim mesmo e você vê se põe no jornal ou não.
- Mas se eu por, dá pra contar quem me falou?
- Deus me livre! Claro que não!
- Viu? Então é melhor nem contar.
- Mas eu vou contar e você reinventa. E se me perguntarem se fui eu, eu nego.
Não deixei que contasse… Ah! Vá à merda! Se fosse na pastelaria dantes, ainda!
Robson Miguel Camargo
Publicado na edição 593, em 01 de novembro de 2011
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