Questão de método
Colunas, Marco Leite / 22 de dezembro de 2011 14:44
Tô no fim da leitura de um livro chamado “Asas do Brasil, uma história que voa pelo mundo”. É a história da Embraer, ou melhor, da saga de alguns brasileiros que resolveram que por aqui também era possível se fabricar aviões, bons aviões. Quase quinhentas páginas de uma epopéia escrita por Cosme Degenar Drumond, um mestre em atividades aeronáuticas e aeroespaciais brasileiras. Prá se ter idéia da abrangência histórica da obra, tudo começa em 1496 com os primeiros projetos de Leonardo da Vinci, até hoje. A história da empresa não começa com a fabricação do Bandeirante, o primeiro projeto, vem de mais longe, com a criação do ITA, que formaria os primeiros profissionais. Depois vem a saga propriamente dita da consolidação como fabricante, até a exaustão como empresa estatal – sujeita a todas as limitações que a condição impõe – até a privatização, que a tornou a terceira maior empresa do setor no mundo, o que não é pouco. A “questão de método”, do título, vem em função de como a privatização era vista por dois lados – me nego a comentar a fala dos atores, apenas transcrevo o que se disse na época, e a capacidade de visão dos dois lados. As pessoas são identificáveis, e cabe a cada um tirar as suas conclusões -, de um lado os privativistas: pessoal do Ministério da Aeronáutica, engenheiros, projetistas, gente da casa; do outro, e uma das atrizes principais, Ângela Guadagnin (A deputada Ângela Guadagnin precisou de uma única apresentação de 29 segundos para eternizar-se no posto de Musa do Mensalão. Em 23 de março de 2006, excitada com a votação que afastou da guilhotina o mandato do colega mineiro João Magno, a parlamentar do PT paulista improvisou a Dança da Pizza ? e começou a sair do Congresso para entrar na história nacional da infâmia – texto de Augusto Nunes) prefeita de São José dos Campos na época, tinha a sua solução pra o caso: “Para nós do Partido dos Trabalhadores, a Embraer sempre foi importante, por ter sido criada e desenvolvida por brasileiros e com tecnologia nacional. (…) Porém, o governo federal (FHC) por imposição do FMI, começou o processo de privatização e cumprindo a determinação do acordo parou de subsidiar as empresas estatais. Nesse momento a Embraer deixou de ser competitiva no mercado mundial”. Essa era uma forma de ver a mudança, a outra, a do Brigadeiro Lelio Viana Lobo, então Ministro da Aeronáutica, dizia: “Para mim, tudo isso foi prioridade maior, mesmo com todos os percalços de momento, mas com a visão no futuro. Tudo o que procurei fazer não foi para prazos curtos, foi pensando em trinta, quarenta, cinqüenta anos à frente (…). Eu perguntava para os meus colegas do Alto-Comando da Aeronáutica: se não privatizar o que vai acontecer? (…) Nós discutíamos o assunto uma, duas, três vezes seguidas, e não vislumbrávamos outra solução a não ser vender a companhia. Durante anos, a Aeronáutica incluiu na proposta orçamentária anual uma quantidade razoavelmente grande de recursos para aporte de capital na empresa A proposta ia para a área econômica que dizia que os recursos não tinham prioridade, depois no Congresso o volume de recursos caia mais e na votação do orçamento diminuía mais ainda. Na hora em que o orçamento era aprovado, tínhamos zero para executar”. Como eu disse cada um faça o seu julgamento a respeito de privatização e privatizações e, se for o caso, atire a primeira pedra.
Marco Leite
Feliz Natal.
Publicado na edição 600, 21 de dezembro de 2011.
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