“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.” Tabacaria do Pessoa começa assim e o resto do poema é puro antagonismo justificável dessas expressões iniciais. Fico nelas porque não poder querer ser alguma coisa, ou simplesmente não ser nada, alenta para as coisas que se anunciam cultas demais para quem sabe-se nada. De outra forma, como compreender que uma grande expressão nacional da intelectualidade moderna; um ícone da erudição filosófica contemporânea brasileira; um construtor do pensamento atual possa expressar tanto preconceito político em cadeia nacional? Ou, como um grande conhecido e respeitado diretor cinematográfico, e comentarista televisivo nas horas vagas, pode render-se ao lugar comum do pensamento ultrapassado expressado sob a vestimenta da convicção política, mas que na verdade não passa de uma subserviente mentira? Explico pelo fim.
Semana terminando e as redes telejornalísticas mostravam Davos e Porto Alegre. Naquela, reunião de cúpula para falar da crise mundial. Nesta, Fórum Social. Lá, a primeira gaveta da mesa mundial trazia a preocupação puramente europeia. Aqui a mesa mundial é sem gavetas. Lá, uma série de medidas para tentar salvar um sistema financeiro concebido e alimentado por sábios das finanças oriundos das melhores e mais tradicionais instituições. Aqui, um monte de gente que nas suas nações de origem certamente tem espaço de atuação em favor de uma luta constante por justiça social e preservação ambiental. Bem ou mal; para além da rima.
Entre lá e cá a virtualidade realizando-se em forma de notícia. Pura mágica. (Pra cá, as expressões anunciadas no começo deste nada, perdendo-se nas elucubrações descabidas de quem sabe-se nada, e, no nadismo latejante das convicções vãs, a ousadia de pensar-se lido. Mais, a esperança ingênua de imaginar-se entendido.)
Na continuação do fim, a presença da presidenta Dilma sendo, na referência do comentarista citado, tripudiada pela visita a Cuba. Disse o comentarista que ela, a presidenta, segue, à sombra, os passos do seu antecessor. E que se ele a fez presidenta, ela, no exercício da sua autoridade constituída, deveria trilhar caminhos próprios, que determinassem um novo modo de governar. Mas por que Porto Alegre no texto? Porque no momento do comentário citado, a presidenta estava em Porto Alegre e não em Davos. Pra lá mandou representante. Tolo eu, nada eu, penso que a presidenta faz, sim, marcações próprias numa areia que já foi pisada por outros pés que também deixaram suas pegadas. Para o bem e para o mal.
Voltando ao começo, reiterando antes a compreensão do nadismo anunciado, o pensador citado se disse envergonhado pela decadência acadêmica que se expressa, também, nos mais diferentes pipocares de corrupção, inclusive no judiciário. Falou muito e se enrolou mais do que falou. Fiquei decepcionado. Esperava mais e nem menos escutei. E, entre os menos de menos que ouvi e vi, algumas afirmações desvinculadas da realidade só aumentaram a decepção. Como por exemplo, a afirmação de que o Brasil está importando mão de obra, porque a academia (as universidades) não está formando adequadamente tecnólogos que possam suprir as necessidades do desenvolvimento atual. Ele é de direita. Se anunciou assim. Se identificou assim. E enquanto ele falava acontecia a reunião dos líderes em Davos. E ele dizia que uma das características do empobrecimento cultural do povo brasileiro é ele, o povo, pensar no imediato, é negar-se ao posicionamento político; é permitir que a corrupção instale-se com a naturalidade com que se está instalando, inclusive no judiciário. E disse que a Europa é um exemplo de desenvolvimento. E, questionado sobre as possibilidades de mudança dessa realidade conceitualmente cultural; qual o caminho a seguir para transformar essas realidades?, ele estufou o peito e, claro, estava num estúdio, ante às câmeras, num programa que se pretende inteligente, confirmou o que já havia afirmado antes: “vocês, a imprensa, têm um papel fundamental nesse processo de mobilização contra os desmandos que estão ocorrendo e que expressam o comportamento indiferente do povo”.
Quiá quiá quiá quiá quiá!!! Ele falou isso mesmo… Juro! E na sequência veio o comercial de cerveja.
E eu tolo, que imaginava que não era nada, e vibrava na perspectiva antagônica de que não querer ser nada é querer ser tudo, percebo-me só e nada mais que nada.
Robson Miguel Camargo

Publicado na edição 604, 01 de fevereiro de 2012.

 
 

2 Comentários

  1. Tereza disse:

    Como sempre… um trablho brilhante !

  2. Tereza disse:

    …como sempre um trabalho brilhante !

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