Estava no norte do estado capacitando Conselheiros dos Direitos da Criança e do Adolescente e da Assistência Social. Lá pelas tantas, num dos debates que procurava estabelecer padrões de interpretação do que as crianças estão aprontando nas escolas, uma diretora argumentou que se fala muito nas deficiências de aprendizagem dos alunos por conta disso e mais daquilo, e mais de não sei o quê, e completou que pouco se fala nas deficiências de ensinagem. Pela naturalidade da afirmação e pela quase indiferença das reações ao que fora dito, percebi que a expressão não era nova. Para mim era. Êta caverna sem parabólica essa minha!
Pasmei! Era uma profissional, condimentando com um tempero amargo um prato que, pelo jeito, tem sido servido com regularidade nos diferentes espaços das refeições do ensino. No impacto da interpretação provoquei algumas falas para ter a confirmação do achismo e ela veio com uma naturalidade ainda mais desconcertante.
Vencidos os compromissos da semana na cidade aonde se realizava a capacitação, viajei a Londrina. No mínimo dez vezes maior, em termos de densidade populacional e mil vezes maior em termos de estrutura urbana com todo o grau de complexidade que isso pode sugerir, principalmente em relação às estruturas de formação profissional.
O evento que me arrastou a Londrina foi o curso Desenhos Animados para Prevenção da Violência Infantil, que trata de uma série de doze deseinhos bem simples, abordando o cotidiano infantil e as circunstâncias que podem determinar expressões de violência contra crianças a partir de situações em que elas mesmas são os protagonistas da história que pode ter um desenrolar violento pelas atitudes dela própria, e dos outros em relação a ela. São vinhetas modelares do bom comportamento contrapondo-se ao mau comportamento e suas implicações.
O trabalho que resultou nesse material foi uma ação desenvolvida pela Dra. Marie Leiner, Professora, Doutora, PhD, vinculada à Texas Tech University Health Sciences Center – E.U.A.; El Colegio de Chihuahua e Universidad Autonoma de Ciudad Juarez, México; e tem por referência a observação de crianças em escolas públicas em algumas cidades do México e dos Estados Unidos. No Brasil o material foi produzido pelas mãos da Dra. Maria Luiza Marinho Casanova, PhD, também, e integrante do corpo docente da UEL.
Na fala da professora autora do material ela contou coisas surpreendentes das realidades de muitas escolas públicas americanas que nem passavam pela minha imaginação acontecer. Principalmente em se tratando de padrões qualitativos das estruturas dos serviços como deveriam se apresentar e como se apresentam de fato. E, apesar de haver associado quase exageradamente os fenômenos comportamentais das crianças vinculadas ao trabalho com o material que era apresentado, às condições de vulnerabilidade social em que vivem, o que merece algumas ressalvas, foi impactante perceber que certas realidades distorcidas, pulsantes no vasto e complexo sistema de ensino brasileiro, encontram paralelo nas distorções estruturais latejantes no sistema de ensino americano.
A autora iniciou sua fala dizendo da sua grande decepção em relação à comunidade científica pesquisadora do comportamento infantil, com o desinteresse para com as realidades que deveriam ser definidoras de padrões de pesquisa que dessem suporte para intervenções junto às comunidades socialmente vulneráveis, numa perspectiva de enfrentamento e reversão dessas realidades. Quando ela falou de “comunidade científica pesquisadora” imaginei que ela fala da comunidade acadêmica formadora de profissionais. E falava.
Noutro momento do evento, não resisti e perguntei às Doutoras sobre a afirmação inicial de desencantamento em relação à Comunidade Científica Pesquisadora e se isso refletia a indiferença acadêmica, formadora de profissionais da área, o que acabaria por explicar algumas dificuldades nas relações ensino/aprendizagem que acabam por se expressar no comportamento do aluno. Com todas as letras e reiteradamente, a Doutora responsável pela produção do material no Brasil disse: “tenho vergonha das coisas que tenho visto nas escolas como resultado dessa indiferença”.
Daí eu entendi o que a afirmação da minha capacitanda, lá num municipiozinho distante de Londrina, quis dizer quando falou dos problemas de aprendizagem e dos problemas de ensinagem determinando comportamentos nas escolas.
Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. E tudo acaba sendo a mesma coisa.

Robson Miguel Camargo
Publicado na edição 592, em 26 de outubro de 2011

 
 

Nenhum comentário

Seja o primeiro a deixar um comentário.

Deixe um Comentário