Do Lula à Dilma, o bolsa. 5 a 3. I
Robson Miguel Camargo / 5 de outubro de 2011 14:55
De repente a estagiária chega na sala, zóiúda, assustada, anunciando que tinha uma dona que queria falar com o chefe “disso daqui”
- Como assim, “disso daqui”?
- Foi o que ela disse! Respondeu a zóiudinha, pouquinho menos zóiudinha.
- Diga para ela esperar. Assim que terminar esse documento eu a atendo.
- Acho melhor você ir já, pois ela parece meio braba.
- Mais um motivo para esperar. Assim desembrabece.
Foi.
A dona era antiga conhecida doutros tempos em que a atividade técnica se fazia noutros campos. Nos campos do glamour e lindisses outras.
- Boa tarde. Em que posso ajudá-la?
A feição indicava surpresa recíproca e desconforto idem.
- Ah! Então é você que trabalha aqui?
Esse “aqui” era alguma coisa que se aproximava da ideia de um banheiro público sujo e fedorento como a maioria dos banheiros públicos.
- Pois é. Veja como as coisas mudam. Uma hora na vernissage e outra aqui, lidando para e com um público que nem sabe bem o que é vernissage.
- Então vim no lugar certo. Confirmou a lambisgóia, insistindo no “aqui”.
- Lugar certo?
- É, vim conhecer a máquina de fazer vagabundo!
Convicção era o tom da afirmação.
- Máquina de fazer vagabundo? Não entendi!
Entendeu sim, não queria acreditar.
- Não é aqui que dão leite?
Disse, com a convicção de que o “dão leite” remete à existência de uma vacona gigante ali, no canto do muro, com tetonas enormes, despejando leite para quem quiser e que as pessoas chegam com os baldes a qualquer momento e simplesmente “querem o leite”. No pensamento: “ordinária! Joga no lixo todas as estruturas que foram criadas para normatizar o programa…” Na expressão da ideia: “deve haver algum engano, pois nem máquina de moer carne temos, quanto mais de fazer vagabundos…” E emendou com uma aula sobre o que ela jamais iria compreender simplesmente porque ela não queria compreender. “Mas não foi por causa disso que eu vim!” Respiração funda, fechamento segundizado dos olhos, pedindo proteção divina para ter mais calma no coração, que bate descompassado, do que força nos polegares que auxiliam no estrangulamento. “Não é aqui que dão o bolsa?” falou com a certeza de que havia uma gaveta cheia de cartões prontinhos para serem distribuídos a quem quisesse. Como se qualquer pessoa, qualquer mesmo, inclusive ela, chegasse e simplesmente falasse que queria o bolsa e a gaveta fosse aberta e o cartão já estivesse ali, esperando ser usado na lotérica para retirar o salário que o governo dá. Novo pensamento: “Idiota! De novo, jogou no lixo todas as regulações e critérios que enquadram os potenciais usuários de um programa oficial de transferência de renda.” E emendou: “E não adianta você ficar defendendo o governo. Por isso aqui é sim uma máquina de fazer vagabundos.” Nova respiração, novo contar até dez, mil, e nova explicação de que a coisa não era assim, tão simples. E que, se ela sabia que o governo dava, assim, dava, um salário, porque foi isso que ela sugeriu, que me dissesse o local aonde a gente se inscrevia. Eu também ia fazer a minha, pois quem não quer receber um salário para não fazer nada. (Lazarenta! Não é que profetizou as coisas? E não é que tem um monte de gente recebendo para não fazer nada? Só que essas, não tem nada a ver com o bolsa, que na expressão convicta da dona, lubrificava a máquina de fazer vagabundos…) continua na semana que vem… acabou o espaço e já tá tarde!!!
Robson Miguel Camargo
Publicado na edição 589, em 05 de outubro de 2011
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