Na caminhada pela nova pista o encontro embassado com pessoas conhecidas que passavam correndo de mãos dadas. O vento batia forte nelas fazendo-as voar, como imagens de um filme de terror em que os defuntos cabeludos saem das catatumbas e simplesmente vão fazendo seus horrores sem nenhuma lógica nem objetivos, como devem ser os filmes de terror. E eu, caminhante embassado, me perguntando o porquê dessas coisas estarem me acontecendo… o porquê de eu não voar como os caminhantes de mãos dadas parecendo defuntos de filmes de terror… o porquê de o vento não bater às minhas costas… e mais um monte de porquês que iam saindo dos buracos na pista que não estavam ali antes e que não deveriam estar ali depois que eu passasse, pois a pista era demais de nova para ter buracos. As mesmas raposas de outras estradas e outros caminhos e outros tempos passavam com suas crias sem olhar dos lados. Outras raposas, com outras crias, não suas, apareciam mas não voavam com o vento. Um formigueiro gigante surgiu de um dos buracos e desmoronou sobre a pista nova, fazendo com que a população de formigas fosse totalmente sugada por um tamanduá bandeira, que nem estava por ali, mas que não surgiu do nada. Um corvo gigante fez um vôo rasteiro na pista nova lembrando um vôo de águia quando vai certeira na lebre fazendo-a sua presa, mas era um corvo e na pista não tinha lebres tinha outras coisas de aparência estranha e cheiro estranho. Na pista que eu caminhava, eu pensava, tinha raposas, buracos e coisas estranhas de aparência estranha e um corvo gigante plainando e gentes voando como almas cabeludas de filmes de terror e um assobio muito agudo e intenso e dolorido surgiu do escuro das coisas que não se viam e foi aumentando e aumentando e aquelas gentes de mãos dadas e o corvo indo e vindo e os buracos e eu caindo e rodopiando e ia me espatifar quando o telefone…
- Ô Dona Merislawa, não tinha como aparecer antes de eu cair no buraco?
- Oi seu Róbis. Eu vô bem i você?
- Desculpe. Como vai a senhora? É que, sabe, né? Essa angústia de ter que ser e não ter quem seja é demais de apavorante.
- Tá desculpado e não carece sisplicá. Até é bão que não sisplique puis dessas coisa, quanto mais sisplica, menos sintende. É a vida seu Robis… é a vida.
- Nossa! É impressão ou há um certo desalento na sua fala? Cadê a Dona Merislawa arretada que eu conheço? Cadê a Dona Merislawa agitada que eu conheço? Cadê a Dona Merislawa…
- Iiii seu Róbis, pode pará. Já incheu um monte. I continuo cos mesmo arretamento i cas mesma agitação de sempre. Ou não me conhece? Só que te confesso quisperava mais do ano, das coisa, não das pessoa.
- Ah! Então a senhora admite que esperava mais da senhora mesma, já que a senhora é uma pessoa?
- Eu sei cocê isperava uma reação mais enfática da minha pessoa cum essa afirmação que não passa duma provocação piegas e por isso mesmo barata. Eu sei cocê imaginava no fragmento da fração do milésimo do segundo, que minha ispressão nolhar, nas ruga da testa, nos pé de galinha dos canto do zóio, ia ser diferente. I sei cocê emburrô de propósito, pra confirmá tudo isso, já que nóis sabemo que não isperá das pessoa i na consideração de ser pessoa é não isperá de nóis mesmo…
- Nós não. Da senhora! Não me inclua nesse raciocínio de desesperança! Até entendo seu pessimismo que se determina na contramão das expectativas tornadas realidades num cenário que se configura cada vez mais viciado. Até entendo que diante das coisas não acontecendo na velocidade esperada; no tempo desejado; com a qualidade que poderiam ter, a gente pode pessimistar. Mas daí a por tudo a perder, como se não houvesse mais possibilidades de mudanças é trágico demais. E eu poderia simplesmente dizer pra senhora… Dona Merislawa?
- zzz… zzzz… rrrrrrrr
- Dona Merislawa? A senhora dormiu?
- zzz… zzzz… rrrrrrrr
- Nossa! Não é que dormiu mesmo? Coitadinha, além de desesperaçosa está cansadinha. Deixe que durma… outra hora a gente proseia.

Robson Miguel Camargo
Publicado na edição 600, 21 de dezembro de 2011.

 
 

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