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Como é viver a experiência de ser mãe na adolescência?

Em Irati, no ano passado 64 jovens de 15 a 19 anos se tornaram mães. Em 2020 foram 80 mães iratienses nesta faixa etária. O número de adolescentes grávidas tem diminuído em Irati, seguindo a tendência do Brasil e da América Latina.

10/05/2022

Como é viver a experiência de ser mãe na adolescência?

Laiane Mayara da Silva, atualmente com 27 anos, foi mãe na adolescência aos 17. Dez anos depois do nascimento da filha, ela avalia que o maior desafio que precisou enfrentar devido à maternidade não foi cuidar da criança, mas sim conseguir emprego após a gestação.

“Eu engravidei em 2011, quando tinha 16 anos e ganhei o bebê quando tinha 17. Foi difícil entrar no mercado de trabalho, pois eu não estava estudando e nunca tinha trabalhado”, lembra a jovem, que atua como costureira faccionista. “Depois de muita dificuldade, surgiu uma oportunidade de aprender a profissão e trabalhar em casa, e hoje trabalho para mim”, relata.

No mesmo ano em Laiane engravidou outras 465 mil adolescentes brasileiras também se tornaram mães. Ao todo, 25 mil meninas entre 10 e 14 anos deram à luz no país e 440 mil jovens entre 15 e 19 anos tiveram gestações não planejadas em 2011.

Estes números têm diminuído gradativamente nos últimos anos, mas, mesmo assim, a taxa de nascimentos de crianças filhas de mulheres com idade entre 15 e 19 anos no Brasil é 50% maior do que a média mundial. De acordo com o Ministério da Saúde, a média é de 68,4 nascimentos de bebês filhos de mães adolescentes para cada 1.000 nascimentos registrados no país, enquanto no mundo a média é de 46 nascimentos de filhos de mães adolescentes.

Em Irati, no ano passado 64 jovens de 15 a 19 anos se tornaram mães. Em 2020 foram 80 mães iratienses nesta faixa etária.  Como é vivenciada a maternidade por estas meninas? Esse é um dos questionamentos do Núcleo de Estudos e Defesa dos Direitos da Infância e Juventude (Neddij)  da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro).

A estudante de Psicologia da Unicentro, Laleska Raissa Santos Almeida, desenvolveu a pesquisa "A experiência da maternidade sob o olhar de mães adolescentes”, com o objetivo de entender como jovens que se tornaram mães vivem e compreendem a maternidade, além de analisar como as políticas de saúde e assistência social as ajudam nesse período, e quais aspectos sociais atravessam essa experiência.

Na pesquisa, Laleska descobriu alguns aspectos sobre a realidade da maternidade precoce em Irati.  “Compreendemos que são adolescentes entre 13 e 21 anos, algumas já possuem mais de um filho e a maioria engravidou aos 17 anos. O segundo maior número são de meninas que engravidaram aos 14. A maioria são meninas que vêm de famílias com renda de até um salário mínimo e não estão estudando no momento”, descreve a pesquisadora.

Os dados indicam que o problema enfrentado no passado por Laiane para conseguir se inserir no mercado de trabalho, ano após ano se repete nas vidas das mães adolescentes que abandonaram o estudo devido à gravidez ou às exigências de cuidado que um bebê requer.

Além de desenvolver a pesquisa, Laleska também participa do Projeto de Extensão desenvolvido através do Neddij denominado ‘Tô Grávida, e Agora?’.

No atendimento às meninas-gestantes, o projeto criado para assegurar os direitos das adolescentes identificou que as jovens mães costumam ver a nova fase de forma positiva em suas vidas. “Além de mães, essas meninas também são adolescentes. Elas também têm direitos que devem ser garantidos como regulamenta o Estatuto da Criança e do Adolescente. Por isso, cada vivência de maternidade é muito única. Entretanto, percebemos que elas consideram isso como algo central e positivo em suas vidas. Por isso, o acompanhamento psicológico do projeto é importante para que elas se reconheçam na posição de mães e também de adolescentes”, avalia Laleska.

A Secretaria Municipal de Saúde de Irati também conta com um projeto para oferecer apoio psicológico às jovens que engravidaram na adolescência, através do qual são realizados encontros quinzenais. A enfermeira do pré-natal de Irati, Adriane Fagali, descreve como é o trabalho.

“Nós temos vigente um grupo de adolescentes que compreende as idades de 12 a 17 anos, o qual terá um encontro com o tema relacionado à gravidez na adolescência. Esse grupo é realizado no pavilhão do Campo Municipal e é coordenado por psicólogas. As adolescentes interessadas podem procurar as unidades de saúde para maiores informações”, conta Adriane.

Alerta quanto à saúde

A gravidez na adolescência pode trazer riscos à saúde tanto da mãe quando da criança. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), filhos de mães adolescentes têm maior probabilidade de apresentar baixo peso ao nascer e maior probabilidade de morte do que os filhos de mães com 20 anos ou mais.

A possibilidade da prematuridade também é maior e outros problemas para a saúde das gestantes podem surgir – como anemia, depressão pós-parto ou até mesmo o aborto espontâneo.

A enfermeira do pré-natal da Secretaria de Saúde de Irati alerta que toda adolescente, assim que descobrir a gravidez, deve buscar uma unidade de saúde para iniciar o acompanhamento médico e de enfermagem da gestação.

É importante salientar que assim que seja descoberta a gestação, essa adolescente procure o serviço de pré-natal o quanto antes para darmos início ao seu acompanhamento. Quanto antes a gestante nos procurar, antes serão solicitados todos os exames de rotina e ultrassonografias, oportunizando, assim, tempo hábil para eventuais tratamentos ou intervenções caso for necessário devido alguma alteração detectada nesses exames”, explica Adriane Fagali.

Número de adolescentes grávidas está diminuindo

Em Irati, de acordo com dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), ocorreram 438 gestações entre adolescentes nos últimos quatro anos. Em 2017, 111 meninas entre 15 e 19 anos tiveram filhos; em 2018, o número caiu para 103; diminuiu para 80 em 2019; mantendo o mesmo número em 2020. Em 2021, o número de meninas na mesma faixa etária que foram mães caiu para 64. Em relação aos óbitos de crianças filhas de mães adolescentes, houve cinco mortes em Irati, sendo duas em 2017 e uma em cada um dos demais anos.

A enfermeira do pré-natal atribui a queda nos números de gestações precoces em Irati às ações de conscientização que vêm sendo realizadas. “Ações educativas, abordando o tema nos mais variados segmentos de redes de atendimentos que atendem as adolescentes, como unidades de saúde, escolas e também grupos de adolescentes, bem como a própria conscientização das meninas, somados à divulgação na mídia e redes sociais”, avalia Adriane.

A redução dos números em Irati segue a tendência do Brasil e da América Latina. A média latino-americana –  que é de 66,5 bebês nascidos de mães adolescentes a cada 1.000 meninas de 15 a 19 anos – , é considerada a segunda maior do mundo, atrás apenas da média da África Subsaariana. A média mundial corresponde a 46 nascimentos a cada mil.

Mesmo com um número elevado na América Latina, nos últimos anos, a média do continente vem diminuindo a cada levantamento. No Brasil, por exemplo, em 1995, os nascidos de mães adolescentes a cada 1.000 meninas de 15 a 19 anos era de 80 contra os atuais 68,4, de acordo com dados Organização Pan-Americana de Saúde (PAHO).

No que diz respeito à idade entre 10 e 14 anos, os dados são preocupantes. Só no ano de 2020, 17,5 mil mães deram à luz nesta idade. Em Irati, este número chegou a 10 gravidezes de meninas no mesmo ano.

Problemas socioeconômicos

Além dos riscos à saúde, a gravidez na adolescência ocasiona problemas socioeconômicos devido à falta de tempo da mãe para estudar e conseguir um emprego, o que pode fazer com que ela dependa de outras pessoas para cuidar da criança.

Laiane Mayara da Silva aconselha os jovens para que busquem uma qualificação profissional antes de ter o primeiro filho.

“Eles devem se cuidar para não ter filho cedo. Antes, é preciso estudar para ser alguém na vida. Um filho priva muito a sua liberdade. O filho é sempre da mãe”, opina Laiane, referindo-se aos casos de abandono paterno. “O pai da minha filha a assumiu até aos seis anos de idade. Mas, faz quatro anos que ele não faz mais o seu papel de pai”, afirma.

Prevenção

Além da educação sexual, existem outras formas de prevenir a gravidez precoce. A principal forma – e que também evita doenças sexualmente transmissíveis – é a camisinha.

Distribuída de graça nos postos de saúde, ela é eficaz, desde que utilizada corretamente. Outros métodos contraceptivos como a pílula do dia seguinte, anticoncepcionais e o DIU também podem evitar a gravidez, entretanto, não protegem contra doenças.

‘Tô grávida, e agora?’

A Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) possui um projeto de acolhimento denominado ‘Tô grávida, e agora?’ que promove apoio psicológico e jurídico às mães que tiveram filhos ou engravidaram ainda jovens, durante a pandemia de Covid-19.  A iniciativa é do Núcleo de Estudos e Defesa dos Direitos da Infância e Juventude (Neddij) de Irati, sob a coordenação da professora Michele da Rocha Cervo. A ação atende jovens mães de até 21 anos de idade, ajudando elas a entender o processo de mudanças que irão enfrentar após uma gravidez.

Michele explica que o projeto surgiu conforme foi observada uma demanda social durante os atendimentos realizados pela Unicentro. “O ‘Tô Grávida, e Agora?’ surgiu com a nossa experiência de atendimento à população de crianças e adolescentes que tiveram os direitos violados. Foi aí que vimos a necessidade de olhar para esse público, que foi mãe muito jovem, e oferecer acolhimento psicológico e jurídico”, explica a coordenadora do projeto.

Ela frisa que, devido à pandemia de Covid-19, muitos cuidados preventivos podem ter sido deixados de lado. “Com a pandemia, vimos um afrouxamento das medidas protetivas devido ao isolamento social. Então a gente ofereceu um espaço às jovens mães para escutá-las e acolhe-las nesse momento de gestação, e também após o nascimento do bebê. Muito se pensando como é se tornar mãe; como é a questão da maternidade para elas; como elas veem os seus direitos; e as redes de apoio”, descreve Michele.

O projeto, segundo a coordenadora, busca orientar e dar apoio. “Acho importante falar que no projeto a gente trabalha com uma concepção de juventude. A gente considera os marcadores sociais para compreender que jovem é essa e o que colocar para ela como experiência de maternidade”, avalia.

Texto: Lenon Diego Gauron e Letícia Torres/Hoje Centro Sul

Foto: Pixabay

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