4º Concurso de Literatura Carcerária revela o cotidiano por detrás das grades
Através de um projeto da Divisão de Extensão da Unicentro, Pró-Egresso e Conselho da Comunidade, a produção literária é estimulada entre os detentos
Irati - Detentos da 41ª Delegacia Regional de Polícia (DRP) experimentam a oportunidade de registrar no papel seus sentimentos e sua visão de mundo por detrás das grades da carceragem. Eles participam de um projeto desenvolvido pelo programa Pró-Egresso e Conselho da Comunidade e a Divisão de Extensão da Unicentro (DIEX/I). Estagiárias do curso de Pedagogia frequentam semanalmente a carceragem da delegacia, onde aplicam o chamado “letramento”: os presos são estimulados, sob vários métodos, a exercitar a leitura e a escrita. Na quinta (15), eles receberam uma premiação, resultado do 4º Concurso de Literatura Carcerária, que envolveu textos em prosa e poesia. Além de poemas, eles inscreveram contos e crônicas na disputa do concurso.
O projeto consolida a política extensionista da universidade, de levar o conhecimento adquirido no campus a serviço da comunidade. O presidente do Conselho da Comunidade e integrante da divisão extensionista da Unicentro, o professor Nelson Luiz Alves Susko, ressaltou o crescimento na adesão ao concurso neste ano, que historicamente tinha em média quatro inscrições. Em 2011 foram 10 textos inscritos: seis poemas, três contos e uma crônica. Todos os autores receberam menção honrosa pela participação.
A crônica “Epitáfio”, do detento Eoslei Francisco Ogg (Sarrafo), foi um dos textos premiados. Na categoria “conto”, Jonas Ferreira (Pimenta) obteve a terceira posição, com o texto “Mulher com uma doença”. “O assalto”, de Joemilson de Assis (Assolan), tirou o segundo lugar. “Pra tudo há uma chance na vida, basta você querer” premiou com o primeiro lugar na modalidade o recluso Elton Oliveira Xavier (Neguinho).
Roseli da Silva, conhecida como Gorda, é autora do poema que ficou em sexta posição: “Realidade”. “Coração que real-mente ama” rendeu o quinto lugar a Érico Neves (Pixe), que já está em liberdade. O detento Wellington Petrouski (Coxa) con-seguiu a quarta colocação com a poesia “Triste Andarilho”. “Perdoa-me”, de Michael Enrique dos Santos (Curitiba), levou o terceiro lugar. Micheli Alves Cardoso (Pequena) escreveu “Eu e as grades”, título que ficou com a segunda melhor colocação. Rogério Silveira (Índio) obteve o primeiro lugar, com a poesia “Não desista”. Susko observou que a Unicentro pretende publicar um livro com as várias poesias já escritas pelo vencedor do concurso.
O coordenador do programa Pró-Egres-so, Alceu Filipaki, saudou aos participantes do concurso. Em tom descontraído, ele disse que sua intenção era a de que no próximo ano haja novos participantes, pois espera que eles recuperem logo a liberdade e ressaltou o desejo de que todos os detentos cumpram suas penas com dignidade, a fim de que sejam acolhidos novamente pela sociedade de braços abertos.
Quem avaliou os trabalhos inscritos foram integrantes da Academia de Letras, Ciências e Artes do Centro-Sul do Paraná (ALACS), que observou os critérios de conteúdo e forma dos textos apresentados. A academia enviou uma mensagem aos detentos, ressaltando a importância do registro literário das emoções experimentadas atrás das grades.
Após a entrega dos prêmios, uma cena comovente: três das detentas se abraçam e choram emocionadas, combinando o dia em que se reencontrariam aqui fora. Uma delas recebia a liberdade naquele dia, após um ano presa longe de casa – a mulher era da cidade de Inácio Martins.

Voluntariado
A estudante do 1º ano de Pedagogia da Unicentro, Cristiane Bueno, estagiária do projeto, comenta que obteve conhecimento sobre ele na faculdade, quando um professor falou da abertura de vagas de estágio. Após um processo seletivo e uma entrevista, ela começou a participar, no começo do ano. Antes, porém, recebeu orientação da assistente social do Conselho da Comu-nidade, “até porque nós nunca tínhamos tido acesso à delegacia, não sabíamos como funcionava e nós precisávamos nos adaptar à situação de vir aqui dar aula”.
Sua colega Saionara Franco lembra que as estagiárias se reuniam às terças com as professoras Patrícia e Soeli, do Departamento de Letras, que ajudavam a elaborar o conteúdo das aulas, aplicadas aos detentos nas quintas.
Cristiane explica que elas lidam com detentos em diferentes níveis de alfa-betização. “Tanto que havia alguns pra-ticamente analfabetos. Apresentávamos atividades em que incentivávamos todos a participar e que todos tinham capacidade de resolver. Nenhum ficava de fora ou sentia dificuldade. Todo o trabalho desde o começo do ano já estava sendo preparado para esse concurso literário”, observa. Ela acrescenta que durante o trabalho realizado junto aos encarcerados, eles foram apresentados a vários autores e diversas formas de poesia, além de outros gêneros textuais, como a crônica, o texto de jornal, de revista e contos.
Questionadas sobre o que a participação no projeto muda sobre a visão de mundo delas, tanto Cristiane e Saionara, quanto Luana Ferreira, estagiária do 4º ano de Pedagogia, admitem que ao se aproximar dos detentos, a percepção da realidade se altera. “Acho que todo mundo tem uma visão diferente e conhece somente o lado de fora, não conhece o lado de dentro da prisão”, diz Cristiane. Ela acrescenta que, desde que passou a frequentar a carceragem e passou a conhecer a história de cada um, notou que muita coisa precisava ser feita. “Apesar de tudo, eles precisam de muita ajuda. Nosso trabalho até ganha um caráter assis-tencialista, aparentemente, pois nós con-versamos com eles, tiramos suas dúvidas, eles sempre querem saber alguma coisa aqui de fora”, afirma a estagiária Cristiane.
Segundo ela, um dos aprendizados é a percepção de que do lado de fora da cadeia há muita coisa às quais só se atribui o valor depois da perda da liberdade. “Às vezes, nem eles enquanto estavam aqui fora davam valor a essa liberdade e veem o que perderam”, acrescenta.
As três afirmam que a sociedade geralmente se limita a enxergar o preso apenas sob a ótica da vítima de um crime. Lá dentro, elas dizem passar a notá-los além do fato de terem cometido um ou mais crimes. “Devemos julgar o crime e não o criminoso, eles são pessoas como quaisquer outras. Eles têm consciência de que erraram e estão aqui pagando por isso. O crime quem deve julgar é o juiz, não nós. Devemos tratá-los de igual para igual”, dizem as estagiárias.
Texto e fotos: Edilson Kernicki, da Redação
Publicado na edição 600, 21 de dezembro de 2011.
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PARABÉNS A TODOS QUE DE UMA FORMA OU DE OUTRA COLABORARAM NA REALIZAÇÃO DESTE EVENTO, EM ESPECIAL AS ENTIDADES QUE PATROCINARAM A PREMIAÇÃO, A ACADEMIA DE LETRAS, A UNICENTRO E DEMAIS PARCEIROS. LEMBREMOS-NOS DE QUE ESTE PROJETO VISA A TRANSFORMAÇÃO DO INDIVÍDUO, POR MEIO DA LITERATURA, A DESENVOLVER SUA SENSIBILIDADE E SEU RACIOCÍNIO PARA OS VERDADEIROS VALORES MORAIS E ÉTICOS DE NOSSA SOCIEDADE. ERRARAM, SIM. MAS A PENALIZAÇÃO ESTÁ SENDO CUMPRIDA, OS DANOS DEVEM SER REPARADOS. A NOSSA SOCIEDADE PEDE POR UMA JUSTIÇA COERENTE E EFICAZ. MAS TODO O INDIVÍDUO, DENTRO DOS PRÍNCIPIOS DOS DIREITOS HUMANOS DEVEM SER TRATADOS COMO SERES HUMANOS, LIVRES DOS PRECONCEITOS MORAIS. A TODOS O MEU FORTE ABRAÇO, UM FELIZ NATAL E UM MARAVILHOSO ANO NOVO REPLETO DE MUITA PAZ.