

A cara era de quem tinha terminado de se empachar com uma bela macarronada, de entrada; e um
tacho de feijoada no complemento. Uns dois litros de vinho tinto seco com aquela e uns três de caipirinha com esta; claro, o limão rosa.
Isso pra dizer da satisfação indisfarçada de avô babão encharcado de faceirice pelo neto artista. E na arrebentação provocativa a afirmação de que o que fora escrito na semana passada era pura incompreensão. Mais: onde é que eu ando com a cabeça ou o que espero da vida ao escrever aquelas tonguices incompreensíveis? “Não tem coisa mais séria pra escrever? Ou não sabe escrever coisa mais séria? É endereçada a mensagem? Aquelas baboseiras têm sentido dirigido? Onde já se viu aquilo de cabrita com tetas gigantes?” Agigantadas, corrijo. “É a mesma coisa!” E na continuidade dos desaforos, a mãozinha como que a desprezar as idéias que se formavam e o sorriso matreiro de quem ta conseguindo o intento da provocação. “Onde já se viu tanta bobagem? A única coisa que se salvou foi a caipirinha. Essa parte eu gostei. O resto? Acho que vou fazer um seguro contra colunas inintendíveis.” Essa última, na verdade, não foi uma afirmação explícita, mas pude identificá-la nas entrelinhas das intenções não-expressadas por puro pudor paranóico, pretendido para poder perpassar pequenas porções prosadas, pensadas, pretendidas e preparadas pro prelo. E, lógico, o propósito atendido e terminado na aliteração para a sua conclusão exclamatória: “P que p. Pirou!”.
Nas horas anteriores um pré-sinal de reação à incompreensão: “É o fim da rosca”. Não adianta!, falo, depois de novamente ser inquirido a escrever menos e com letras maiores: tem que usar óculos! E o sarcasmo afirmativo retroalimentando-se das comparações ouvidas por aí: “é que se escrever menos é menos coisa pra gente não compreender”. Na lógica das (in) compreensões retroalimentadas pelas comparações ouvidas por aí sou forçado a entender que em letras maiores a incompreensão é mais clara. E a resposta segura: “Isso!”. É de lato, o sim da fosca, ou o rim da mosca. Trocadilhando os absurdos sem sentido algum, mas cheios de intenção de graça. Sem? Valeu o propósito.
“Vai escrever alguma coisa sobre as eleições?” Não. “Por que não?” Até escrevo se você me disser se esse porquê é junto ou separado, com ou sem acento. “Vá se catá!”
“Eu posso detestar cada palavra que você diz, mas dou a vida para assegurar-te o direito de dizê-las.” – Voltaire
Ok, respondendo abril (considerações sobre considerações da Coluna de 16/04):
De fato, no terceiro caso a não opção pela lógica determinante dos valores comuns não é estabelecida pela hipocrisia compreendida. É alguma coisa mais profunda, mais íntima, relacionada à consciência dos pilares falidos que sustentam a própria negação que ao fazerem revestem-se de uma fortaleza esponjada. Quando digo, portanto da inutilidade de quase nada ocupando o espaço de quase tudo, falo mais do que a simples capacidade de entendimento da afirmação relacionada às experiências existenciais individuais que levam ao reconhecimento das situações análogas. Digo do que se instalou premeditadamente como força ativa de transformação para se deixar tudo como está. Daí a insensatez, a covardia, contrapondo-se à apatia mantida à distância, porque entre a sua instalação e o seu reconhecimento há o tempo e o espaço necessários para a construção dos disfarces. Alinhados, também, os instrumentos de deleite que provocam risos aos espectadores ante a possibilidade de acesso que nada é mais do que sonho, porque a experiência desejada e a realização do desejo determinam a feliz e inútil sensação do conforto. Puro êxtase, pura catarse. Mas não se pode afirmar isso de tudo, porque as possibilidades de percepção dos níveis de consciência determinantes da capacidade de compreensão desses fenômenos construídos são muito tênues. É isso! Valeu as considerações. Sempre às ordens, que tenha valido a resposta.
ROBSON MIGUEL CAMARGO