

O cheiro era de grama cortada. Na gaiola imensa um coelho com a perninha machucada. Do outro lado da rua uma gaiola maior com um Papai Noel aprisionado com um saco imenso nas costa carregando embrulhos irreconhecíveis, vivos.
O bom velhinho chorava agarrado às grades que faziam da gaiola uma prisão. E suas lágrimas molhavam o bolso do agiota que lhe usurpara o encanto e lhe transformara numa estúpida máquina de acabar com sonhos e esperanças e produzir risos de escárnio por detrás das cortinas frias e esburacadas e desbotadas que separam a grande platéia do grande elenco que apresenta o espetáculo obrigatório e sem graça das enganações viciadas. Um caminhão carregado de peixes atrás de um caminhão carregado de oxigênio, atrás de dois caminhões carregados de hidrogênio, atrás de três caminhões carregados de peles, atrás de quatro caminhões carregados de elefantes cobertos de cetim, atrás de cinco caminhões carregados de gentes que se esbofeteavam por uma coxa de frango gigante que passava entre as mãos dos zumbis esticados e voantes por sobre tudo isso. Uma bicicleta no sentido contrário conduzida por uma cabrita de tetas agigantadas espirrando leite por sobre as flores nos canteiros laterais. Uma nuvem escura. Outra nuvem mais escura e um raio congelado entre as duas. Uma abóbora amadurecida numa plantação espinhenta esparramada na vida. Um espirro. Outro espirro. Um trovão e uma revoada de urubus por detrás dos raios congelados. De repente tudo começa a despencar no abismo universal que envolvia tudo isso. A cabrita murchada com a bicicleta no sentido contrário apenas corneteando a passagem sem leite e sem flores e sem nada e o barulho apocalíptico do animal que esbugalhava os olhos enquanto despencava com tudo e o barulho e mais um berro assustador e a corneta e a cabrita e o inevitável espatifar de tudo na proximidade de Pandora. O barulho se repetindo e o barulho aumentando e ensurdecendo e tudo caído e os olhos expectadores glaucomados e o barulho e o estouro...
- Dona Merislawa, que sufoco! Por que demorou tanto? Quase nem me lembrei da senhora. Por pouco achei que tudo ia espatifar, estourar, explodir...
- Seu Robis? Ta bão? Será cos amigo primero não se cumprimenta? Puis acho que divia mesmo dexá acabá cum tudo. Undé cocê tava no sonho?
- Sonho? Sonho? Que sonho? Eu
Chama isso de sonho?
- Primero de tudo, se quisé continuá ca prosa, se acalme. Segundo de tudo, diminua o tom da voiz. Tercero de tudo queu nem tava pensando nos estoramento das cabrita, até porque achei meio sem nexo essas aparição, que no meu ver tava mais pralguma coisa de Frida do que de você mesmo. Quarto de tudo...
- Quarto de tudo que eu estou achando-a um tanto exageradamente segura, beirando quase a bossalidade.
- Boçalidade? Assim cum cedilha, ocê tem noção do que cocê tá me dizendo? Isso sim é ser boçal. Ademais, se lembre queu não tô te ligando pra te acudí, mais pra te contá dos espalhamento que tão fazendo ca tua pessoa. I se quisé te digo nome, sobrenome, apilido, indereço i, não duvide, até erregê.
- Como assim?
- Antis dexeu fazê umas consideração do tipo das pessoa ser assim. Sabe a abobrera do sonho? É mais ou menos assim. Tem gente que sispalha na vida, assim como o chuchuzero. Se alastra. Sisparrama! Não é a vida que sisparrama nelas. É elas que sisparrama na vida. Coisa de praga mesmo. Mato.
- Dona Merislawa, a senhora sabe o quanto lhe quero bem, o quanto lhe sou grato pelos acordamentos nas horas mais angustiantes dos pesadelos. Só que, de repente, lhe percebo um tanto confusa na exposição das idéias. Na verdade gostaria que a senhora me auxiliasse na compreensão desse pesadelo.
- Assim, vô ser obijetiva. Quanto aos pesadelo nem sei o que dizê. Deve de ser tuas neura pululando. No mais é simplificá cos dizer das pessoa que transforma seu existir em verdadera privada. Não pelo que faiz consigo, mais pelo que intenciona fazê cos otros. Assim, por não se dá conta de que se transformo numa privada, tudo que fala é merda.
- Dona Merislawa! Percebo-a, de fato, um tanto explosiva. Façamos o seguinte: marcamos um chimarrão e aprofundamos essa prosa, até para que eu possa compreender melhor a sua intenção, a sua revolta, o seu propósito.
- Chimarrão? Que chimarrão que nada! To indo aí sim, mais é praquela caipira cum limão rosa. I vá preparando queu já to chegando. Chimarrão... Isso é pra quem não tem que agüentá trambicamentos otros! Inté!