Histórias

A história é de antigamente, mas acabou me lembrando do Lewis Hamilton. Seguinte: o da defesa era assim tipo Ruva, dos tempos ISC profissional que grande parte de vocês nem tem idéia do que era, mas o cara era forte, e, além de forte, batia bem, não o Ruva, o meu personagem.

Num intervalo de primeiro pra segundo tempo, o atacante adversário aproximou-se e disse: “cara, vai manso, isso aqui não é Copa do Mudo”, e ouviu: “futebol é feito pra macho!”, e devolveu: “ta certo, mas pra macho inteligente”. E mais não se disse. Essa história do Hamilton sair falando que com ele é pau puro, que o Kimi Raikkonen não é macho pra guiar como ele guia, travando dentro curva, retardando a freada, é coisa de otário. Primeiro porque ele perdeu o campeonato do ano passado exatamente pro Kimi e, segundo, por uma questão de respeito, ele, Lewis, ainda não é nada, é só mais um aspirante. Tenho algumas horas de janela na F1, algumas ao vivo, e o resto como mortal comum, via TV. Durante esse tempo tive a oportunidade de acompanhar grandes encrencas como, por exemplo, Jim Clark e Graham Hill; James Hunt e Joachen Mass; René Arnoux e Alain Prost. Villeneuve e Pironi, Mansell e Piquet, Piquet e Senna, Senna e Prost e, notem, Schumacher não entra nesta lista por um motivo: quando ele chegou já não havia ninguém pra brigar com ele, Senna havia morrido e, se vivo, o alemão não seria a lenda que acabou virando. Mas o foco é outro. Aprendi uma coisa observando de longe o mundo da F1, não se ataca ninguém diretamente fora das pistas. Aí você me diria: mas o Piquet falava mal de todo mundo. Não era de todo mundo, era só de uma parte dele, e quando abria a boca não era pra falar mal da pilotagem de alguém, eram criticas quase sempre ferinas, mas as pessoas, e ele atacava o fígado. Mansell sabe disso, e Senna também sabia. Piquet não saia ileso, mas não perdia a piada. Com isso criou uma prole de grandes amigos, e de inimigos da mesma estatura. Futuro de Hamilton pra mim é uma incógnita. O mundo da F1 não costuma tratar a chocolate os falastrões, mesmo que eles possuam as habilidades de Lewis. Ninguém chega ao topo impunemente, e não se consegue se manter nele transgredindo regras básicas. Ninguém ta ali porque aprendeu a entrar em curva a oitenta quilômetros por hora; e ninguém ta ali pra correr por salário mínimo. É muita grana na parada, é muito tudo na parada. Agora, ele pode ser tudo, menos bobo. Em Monza, ele deitou e rolou. Jogou gente pra fora, ou quase; rodou a baiana em cima do Kimi, mas, curiosamente, quando chegou no Massa, tirou o pé - e ele tinha carro pra tentar uma ultrapassagem – e eu fiquei me perguntando o porque do “amarelamento” temporário. Na segunda-feira, vendo os noticiários da TV, lembrei de uma frase do Ayrton: “chegar é fácil, complicado é passar”. Durante a corrida, fiquei torcendo pro Lewis disputar a posição com o Massa; pra deixar pra frear mais tarde, como ele diz que sabe fazer. Pra vir colado, na reta, e tirar pra passar na entrada da curva. Fazer uma curva por fora, pra ter a preferência na próxima. Essas manobras “básicas”, que diferenciam os que ainda comem com as quatro mãos no chão, dos que comem sentados. O cara é bom? Não tenho a menor dúvida! Mas se não domesticar os seus “tico & teco”, a carreira vai ser curta.
Marco Leite
marcoleite@irati.com.br