A última não saiu

Esbaforida e, como sempre, por último, já foi logo proclamando:
-Já sabem da última?
Não sabia que a última era ela mesma até a sua chegada. Antes que alguém respondesse:
-Se me perguntarem, eu nego.
Nisso, uma da roda, que já estava cansada das possibilidades de negação investiu:
-Como assim “se me perguntarem eu nego”?
Um tanto desconfortável, mas sem perder o rebolado:
-Assim, por exemplo, se alguém de quem eu vou contar o que fiquei sabendo vier me perguntar se eu falei mesmo o que eu vou falar, eu nego.
No mal estar criado a coragem para continuar:
-Então é mentira?
O desconforto permaneceu e fincou uma ruga na testa:
-Bom, isso eu não sei. Por isso é que eu nego. Mas a verdade é que me contaram. E vocês sabem, né? Essas coisas as pessoas falam assim sem saber direito se aconteceu mesmo. Mas o fato é que eu vou contar do jeito que me contaram, sem tirar nem pôr!
Percebendo-se receptora das atenções na mesma proporção da negadora dos fatos a mesma da roda insistiu:
-Mas quem te contou?
Incrédula:
-Como assim, quem me contou?
Superior, com duas rugas na testa e um ar de desconfiança desafiadora:
-Ué! Você não disse que se vierem te perguntar você nega? Então pode contar quem te contou. Certamente se alguém for verificar, quem te contou também vai negar. E o causo acabará de diluindo nas negações que apenas serviram para contar alguma coisa de alguém que ninguém sabe se é verdade, mas que botou nomes nas bocas alheias.
Indignada:
-Você está insinuando que eu estou inventando essas coisas?
Quase vitoriosa:
-Que coisas?
Furiosa:
-Essas que eu ia contar e você não deixou.
Cínica:
-Como assim eu não deixei?
Debatendo-se na armadilha:
-Claro! Em vez de escutar a bomba, você ficou interferindo com coisas que não têm importância.
Extremamente cínica:
-A bomba que você negaria se fosse necessário confirmar. Daí que eu não sei nem se vale a pena escutar. Porque, no mínimo, é pra falar de alguém que você não gosta.
Descontrolada:
- Sabe de uma coisa? Eu nunca fui com a tua cara. Sempre te achei assim com um jeito de quem não se pode confiar. Sabe né, dessas pessoas que não procuram se enturmar, que ficam sempre na sua. Que se negam a participar das coisas. Então, não me admira que você não queira saber o que eu ia contar, que aliás não é de alguém que eu não goste, porque não é de você.
Impávida:
-Então é de alguém que você gosta?
Extremamente descontrolada, agarrada por outras duas da roda:
-Também não te interessa porque já não vou mais contar nada. Você nem merece saber. Ia ficar de queixo caído, mas nem merece saber.
Sarcática:
-Pois saiba que a última era você. Isso mesmo, você! Nós estávamos falando de você. É ou não é pessoal?
E a roda:
-Nããããoooo!!!!