

Ele liga o computador e inicia a escrita iludindo-se que alguém vai perder tempo lendo-o. Aí já retorna í frase recém concluída e pensa que existe uma figura de estilo que denomina o fení´meno de substituir o autor pelo texto e até pensa em discorrer sobre isso apenas para justificar o porquê de concordar o verbo com ele e não com a escrita. Lembra-se das opiniíµes, escassas é verdade, sobre as coisas que escreve e desiste da idéia uma vez que a mais latejante dá conta dos pedidos de não ficar enrolando e, se possível, escrever menos e em letras maiores. Coça a nuca e ergue os braços entrelaçando as mãos atrás da cabeça como que para segurar o corpo retido pelo encosto da cadeira. Percebe que está disfarçando um espreguiçar contido durante o dia todo e um monte de lembranças invadem-lhe a memória. De novo? í‰ invadem-lhe ou indadelhe? Outra lembrança determina a opção, e justifica o erro pela materialização improvável. Prefere as lembranças ao monte e até esboça um sorriso pelo desígnio subjetivado do trocadilho. Pára. Relê o quase nada escrito e quase tudo do quase nada que escreveu não faz sentido. Volta a tecla para apagar o éfe que invadiu o vê do escreveu e imediatamente pensa que se for registrar todas as letras escapadas nas sobras dos dedos não terminará nunca a coluna. Pensa nas devidas aspas no registro do escreveu e por birra não as coloca. Lembra do texto intelectualizado de um grande escritor, famosíssimo, há umas três semanas, e se conforma de não conseguir genializar as palavras. Isso! Conformismo! í‰ disso que estava mesmo precisando para tornar-se mais humano, depois de um dia um tanto tumultuado de fazeres demais e de idéias de menos. Percebeu-se robotizado e acha até legal que na robotização diária de quase tudo lembre-se não do texto pobre mas da pobreza do texto. Fica imaginando a amiga lendo as coisas e marcando a consulta com o médico da cabeça, porque escrever isso, assim, sem parágrafos não é pra gente decente. E na contradição da afirmação pergunta-se no íntimo o que é de fato indecente. E lembra, de novo, da amiga. Olha para as paredes e tem certeza de que já escrevera essas mesmas noologices e nem isso lhe arranca o sorriso próprio dos neologistas iludidos. Estilo, meu anjo, estilo. Diz-lhe a consciência, certamente embriagada de ontem, ainda. Nem isso. Pensa que seria mais fácil retomar alguns temas solicitados e não atendidos. Sabe que seria mais fácil escrever e discorrer e filosofar e afirmar e até enganar, né? Morde as pontas dos minguinhos numa única vez e acha que a menina haverá de perguntar-lhe se não é mindinho. Boceja. Puxa pelos pêlos dos braços imaginando-se inspirado pela flagelação. Endireita a postura. Lembra da mulher que mostrando-lhe o colar que ganhara da amiga e a amiga, com um chumaço de penas na ponta, o colar, conta do companheiro e da afirmação a ele de que é das gatas que eles gostam mas é com as galinhas que eles ficam. Ri. E emenda as lembranças com a receita para creme anti-rugas, proposto em outra ocasião, que mistura bosta seca de dois dias ao sol de galinha com a gosma de babosa. Tem que ser galinha carijó. Refugia-se na lembrança da proposta de parceria para o empreendimento; da animação e dos risos e sabe que as ocasiíµes não cabiam no texto. Resiste ao ímpeto da deleção e sabe que isso não está no dicionário. Ainda! Ponham, então, já! Tem certeza que o rosto encoberto pelo chapéu do homem escostado no muro da estação é de um espião e não sabe porque o artista não dobrou a perna esquerda encostando o pé do espião no muro. Seria pra não dar mau exemplo? Seria porque encareceria mais a obra? Seria proposital para inspirar essa indagação ao vazio e autometonimiado escriba sem parágrafos? Seria?