

A noite terminava mas o dia insistia em não aparecer. Ele percebeu que alguma coisa não estava certa. Esticou a mão para o criado mudo comprado bidê na loja de móveis usados e com cuidado identificou os óculos pelo tato. Esse procedimento forçou-se desde a madrugada em que certo do que apanhava, derramou o chá de cipó cabeludo deixado toda noite para ajudar na soltura dos intestinos. Poderia simplesmente mudar o lugar do copo, mas entendeu que o necessário cuidado o tornaria melhor. A moça dos produtos naturais o informara de que pra esse problema o chá era outro, que cipó cabeludo era mais para afinar o sangue mas ele não deu ouvidos na lembrança de que o irmão do cunhado que sofria dos pesos e amarraçíµes intestinais curou-se com essa trepadeira. Certificou-se de que o chinelo preto gasto de nove anos, ganhado da tia, ido embora há três, estava devidamente colocado para o encaixe dos pés sobre o tapete pelêgo presente do aví´ nos dezoito; primeiro o pé direito, depois o esquerdo, era o ritual; um enretar a coluna, um leve movimento do pescoço para trás, para os lados, um forçar os ombros para trás depois para a frente, um forte fechar de olhos e o levantar do novo homem para um novo dia, nalguma coisa nova, errada. No levantar-se da cama uma pontada na coluna e entrevamento nas juntas. A mão automática no lombo e o franzir de testa atestando coisas estranhas. No pijama listrado de lãzinha, presente da outra tia que não foi-se, embora quase nunca vem, a marca do ferro quente demais para tirar um amassado de menos, e uma lembrança relãmpago da noite chuvosa e do tatú proibido e recheado marcando a data comemorativa justificando o presente. Um arrepio arremata a pontada e um estranhamento do escuro que não devia ser. O galo emudecido a justificar o titubeio do caminhar. Um único raio de sol perdido e impotente na escuridão tentando em vão invadir a cozinha pelo buraco mal remendado da porta; um pernilongo castrado a debater-se no lampião na parede todo picumanzado. No caminhar um espelho perdido a mostrar uma figura disforme no cabelo e na alma, o retrato. Ao abrir a porta um calor imenso e intenso e devorador e mortal; incompreensível na escuridão asfixiante. A casa zepellinada a derreter-se ante o olhar parado da coruja que passava empalhada pela janela do outro lado. Tudo escuro e o passo em vão. Um barco do nada em direção de tudo, atropelando as intençíµes incompletadas no medo. Um facho a mais de escuridão conduzindo um sussuro incompreensível e indo e vido e tornando-se grito acorde, o telefone.
- Dona Merislawa... obrigado... somente a senhora pra me salvar desses pesadelos que parecem querer...
- Não carece de ficá sinrolando, seu Robis. Também não carece de querê impressioná cos nada cocê diz. Tí´ muito lazarentiada da cara cocê i divia de dexá cos abismo dos pesadelo tingulissem.
- Nossa! Desse jeito vou pensar que a senhora...
- Já disse procê não sinrolá. I mais: não divia mesmo de te salvá dos abismo por causa deu tar muito aborrecida cos teus procedimento. Veja bem, seu Robis, não queu me ache mais do que as otras pessoa, mais nóis temos uma história de amizade construída nos mais edificante pilares das consideração. I quando eu priciso da tua ajuda o que que você faiz? Como cocê responde? Co mais absoluto i triste dos distanciamento. I eu fico me perguntando pra quê queu inda insisto nessas consideração se a vida tem mostrado que não adianta a gente querê disinvolvê laços damizade séla só acontece dum lado. As coisa não pricisa ser assim. Daí eu me pergunto será cocê também tá invelhecendo mal? Desconfortavelmente, como você mesmo fica falando daquela crí´nica daquele cara? Será cos teus zóio também tão cheio de fel i tuas palavra sem nenhuma doçura? Será que...
- Dona Merislawa, me perdoe! Percebo-a tão melancólica, tão fragilizada, quase amarga.
- O quê? Amarga eu? Tá loco? Ah! Já sei! Quando demais eu posso tar meio assim, como queu ví´ falá... Assim cum vontade de dizê umas verdade. Mais pra isso carece dum incontro. Levante daí i venha tomá uma caipira. Só pra isso queu te liguei. Tí´ na quarta i bateu a saudade. Não carece de trazê nada. Só venha.
- Tí´ indo.