De Irati Velho a Vila São João nas histórias populares de Joel Teixeira

O que dá vida a um lugar são as pessoas que o constroem e marcam o cotidiano de seus habitantes. Na Vila São João, primeiro bairro de Irati, cada canto guarda uma história
Irati - Foi na Vila São João, bairro situado na região leste do quadro urbano de Irati, onde se instalaram as primeiras famí­lias da cidade. Antes o local era chamado Irati Velho. Até que Manoel da Cruz do Nascimento doasse terras a São João Baptista, em 1882, santo que até hoje dá nome ao lugar e, inclusive, a quem é dedicado nome de igreja que lá está situada e, durante muito tempo, concentrou-se a vida social da cidade.
Chegamos pela rua que leva o nome de Manoel da Cruz do Nascimento. Lá mora um escritor - cronista e poeta - chamado Joel Gomes Teixeira. Joel guarda em seus textos a memória da Vila São João, dos primeiros moradores, e dos tempos em que ela era apenas um bairro simples, repleto de ruas de terra - que viravam lama nos dias de chuvas intermitentes - das casas de madeira, rodeadas por cercas de mesmo material, do mato, das poucas casas comerciais, das escolinhas de professores abnegados, e da igreja das festas em homenagem a São João.
Porém, Joel lembra de todo este cenário, que ainda compíµe o imaginário de muita gente que vive ou lá viveu, através das pessoas e suas histórias, cada uma com sua peculiaridade, mas que escreveram a história da Vila e, até mesmo, de Irati, como o próprio pai, João da Luz Teixeira, conhecido como “Jango Patroleiro”, que por muito tempo prestou serviços í  Prefeitura, mantendo ruas e estradas do Municí­pio que ainda não possuí­am asfalto. Assim como o filho escritor, “Jango” era um “contador de histórias”. E é dele que Joel herdou a vocação de registrar a história e imaginário popular da Vila. “Meu pai era a memória viva da Vila e eu ouvia as histórias que ele contava. E eu me penitencio até hoje por não ter anotado estas histórias”, diz ele, sem esconder a emoção.
Desta relação profunda com a gente e o local onde nasceu e se criou há 56 anos, surgiu o livro “Histórias Populares”, onde reúne crí´nicas e poesias. Segundo o próprio autor, o livro foi “publicado í s duras penas” em 2002, após a conclusão do projeto “Vale Saber”. Foram impressos aproximadamente 60 exemplares, que podem ser encontrados em bibliotecas de escolas da cidade. “Tudo que me ocorreu na vida foi na Vila São João”, destaca.
Joel trabalhou por mais de 20 anos no ramo de Contabilidade. Antes de se aposentar, foi ainda comerciante. “Mas sempre escrevi”, destaca ele. Em alguns momentos, a máquina de escrever foi o instrumento de trabalho. Agora, ele prefere escrever a mão as crí´nicas e poesias. Grande parte das idéias surge em caminhadas pela Vila. “Sempre que tenho tempo, vou escrevendo. Sempre que vou caminhando, no mato, mais sossegado, vão surgindo as idéias”, diz ele. “A inspiração surge de repente”.
Joel registra as idéias que surgem em seu pensamento num papel, com a data e o horário em que elas aparecem. A influência para escrever vem de nomes consagrados da literatura brasileira. “Gosto muito do í‰rico Verí­ssimo. Ele é um poeta, descreve as coisas com uma delicadeza... Também gosto do Mário Quintana. Leio e releio obras dele”, afirma.
A matriarca da famí­lia, sua avó, Maria Teixeira, conhecida popularmente como “Nhá Teixeira”, chegou em Irati em 1907. segundo o escritor. De acordo com ele, foi uma das primeiras moradoras do então Irati Velho. Da casa dela, lembra, com um brilho no olhar, do pomar que a rodeava e do ambiente silvestre. “Era tanto mato na Vila São João que se ouvia o ‘urro’ dos bichos no Rio das Antas. Não se sabia se era onça ou o que era.”, relata. “Havia muitos pomares. Aí­ a ‘Nhá Teixeira’ fazia doces. Era uma pessoa muito conhecida na Vila”, completa.
E havia outras matriarcas, pilares das poucas famí­lias existentes e que com o passar dos anos viraram referência í  comunidade, sempre muito bem quistas, conforme relata o escritor. Uma dessas era “Nhá Tuca”, que segundo Joel, veio a falecer com mais de 100 anos de idade. “Era uma velhinha que o povo queria muito bem. Era uma pessoa muito ativa. A casa dela era fascinante, havia um clima de mistério. Também havia muita porcelana. E até o final da vida dela ia passear na casa das filhas”, descreve Joel.
O movimento dos primeiros anos da Vila São João, assim batizada da década de 1950 em diante, girava em torno do armazém da Dona Tuta. “Na época, a Vila tinha muita gente matuta. E a casa de comércio do seu Sérgio e Dona Tuta era muito chique. A casa ficava na esquina da Trans Areia. Ali havia casas de aluguel, com requinte, diferenciadas. O movimento acontecia ali”, narra Joel.
E quem disse que a Vila São João não foi lugar de artistas? Um destes era o poeta Juvenal Camargo, o “Juvenal Mole”. “Eu conheci o seu Juvenal muito criança. Ele tinha uma forma de se vestir sempre com um capote, mala na mão. Eu via ele tocando violão. Distribuí­a papel com poesias í s pessoas”, lembra Joel. “Um filho dele tocava gaita, era o ‘João Mole’. Era impossí­vel pensar festa junina sem a gaita do seu João. Ele sempre tocava. E a criançada levada jogava chiclete embaixo do sapato”.

Algumas das recordaçíµes e todo seu aspecto lúdico e mágico podem ser vistos na crí´nica de Joel Gomes Teixeira, “Doces lembranças da Vila”.

Doces lembranças da Vila
Manoel da Cruz do Nascimento, doou as terras ao Santo e aí­, então, tudo começou. Alguns já estavam por aqui, outros foram chegando e o povoado foi tomando forma.
Maria Teixeira (Nhá Teixeira) aportou por aqui em 1907, oriunda das proximidades de Cruz Machado. Instalou-se í s margens do Rio das Antas, de águas claras e lí­mpidas na época. Costumava falar de seu rancho; a solidão das noites, céus marejados de estrelas, o silêncio profundo quebrado tão somente pelo crepitar das chamas no fogão de lenha e o mugido assombrador de animais ferozes na cabeceira do rio. Sangue de bugre, guerreira fez da propriedade um grande pomar; uma espécie de “oásis” em meio ao mato cerrado.
Por aqui já viva dona Gertrudes da Silva (Nhá Tuca) que faleceu dos centos e tantos anos. Uma das mais antigas moradoras da comunidade. Guardo algumas gratas recordaçíµes da boa velhinha; em especial sua casinha de madeira com cí´modos que se interligavam por degraus. E em quase todos, prateleiras com muita porcelana decorada. Figueiras que penduravam galhos junto í s janelas e alecrins cheirosos abrindo caminho na porta de entrada.
Silvestre e Percí­lia Rodrigues da Anunciação. O casarão do “Velho Silvestre” encrustado no alto da mata; caquiseiros colorindo outonos com folhas avermelhadas. A propósito: existe ainda um deles remanescentes no terreno da antiga propriedade. Maria Teixeira (minha avó) costumava reunir-se semanalmente com “Nhá Tuca”, “Nhá Percí­lia” e “Tia Lucinde”. As longas conversas eram regadas a leite fresco, doce de pêras e bijus de farinha de milho. Uma espécie de ritual, que selava o transcendente pacto de amizade que se estabelecia naqueles encontros.
Um pouco mais recente na história, lembro-me da alegria que morava na casa dos Zainedim. “Seo Tufic” e dona Arvelina (parteira abnegada). Risos sonoros, natais inesquecí­veis... O rádio í  bateria dos Zainedim escancarando modinhas de Tonico e Tinoco. Alegria da criançada, a singeleza de nossas casas iluminadas í  lampião de querosene e o brinde mensal í  lua cheia surgindo entre os eucaliptos da estrada do Fomento.
O armazém de Dona Tuta. Um toque de finesse do casal Sérgio e Tuta, na curva da estrada do Riozinho.
Escola Isolada da Vila São João. Isolada, cheia de problemas, sim, porém mágica. O pé de magnólias ao lado, as flores brancas e perfumadas, oferendas í s nossas mestras. Salas embalsamadas em tardes quietas do Irati Velho. Salve bravos professores, Salve Dona Maria Rosa Passos, sensibilidade em pessoa! Escolinha do Fomento (atrás do Colégio Florestal), garra e perseverança das “Gaspar”. Guiomar e Maria, de saudosas memórias. Diva, firme e forte entre nós. Grandes momentos, eternas lembranças.
João da Luz Teixeira (Jango Patroleiro), meu pai. Cinqí¼enta e quatro anos de serviços prestados í  Prefeitura Municipal de Irati. Abriu caminhos pelo interior, pela cidade. Ajudou a escrever na lãmina da patrola um trecho da história do Municí­pio.
“Orreda”, o mestre dos mestres, disse-me um dia Irati Velho, berço da poesia, referindo-se ao famoso Juvenal Ferreira de Camargo, o poeta da Vila. Com suas décimas retratando fatos da época. E como toda fruta nunca cai do pé, João Ferreira de Camargo, seu filho, brilhou, brilhou como animador de festas juvenis na Capela de São João. Impossí­vel era pensar em quadrilha sem a gaitinha do “Seo João”.
Na estradinha da Igreja, os moradores: Sr. Vinharski, imigrante polonês. A casa com sótão bordado em lambrequins, a varando sombreada pelas pereiras. A sua rabeca com acordes tristonhos de alguém que por certo relembrava a terra de quem um dia o mar o separou.
Sr. José Gomes (meu aví´). Alegre, boêmio, criador de galos í­ndios. Seguia para as “rinhas” com violão debaixo do braço, terno de linha e cabelos besuntados de brilhantina.
“Vino” Zanlorenzi. Ainda entre nós. A antiga casa, cheirosos sinamomos ao lado da cerca, sombreando o gado preguiçoso que ruminava o tempo.
E assim, incontáveis são as pessoas com quem convivi,ou convivo até hoje. Meu carinho e respeito a todos os que aqui nasceram, aos que aqui escolheram como lugar para viver. Mas permitam-me dedicar estas reminiscências a todos “cinquentíµes” da minha geração. Que selaram amizades ao sabor de groselha ao lado da charrete de “Seo João Russo”, o sorveteiro. Acordaram ao truculento apito das 5h30 da Olaria Marilena, sentiram cheiros de fumaça na Carvorite e magnólias na escolinha. Brincaram entre cones de feno pelos quintais e nadaram entre as avencas de um Rio das Antas de águas muito limpas. Amassaram o barro nas estradas a caminho do Colégio São Vicente, e hoje ruminam pelas varandas as mais doces lembranças.
Enfim a todos os iratienses, parabéns pelos 101 anos de progresso e realizaçíµes.
Com todo o meu respeito e admiração ao poeta Mário Quintana, não me furto í  tentação de plagiá-lo em um dos seus mais lindos poemas:
“E no meu romantismo vagabundo
Eu sei, que nêstes céus de Irati
í‰ para nós que inda São Pedro pinta
Os mais belos crepúsculos do mundo”.
Joel Gomes Teixeira

Texto: João Quaquio

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