

Quem nunca ouviu falar das histórias do monge João Maria, ou “São João Mariaâ€, como foi santificado popularmente? Na região Centro Sul do Estado várias histórias dão conta de sua existência
Irati - Benzedor, andarilho, curandeiro, reunia pessoas, fazia suas previsíµes e pregaçíµes. “Venho de tão longe, que ninguém chega lá. Faço penitência e dou aviso ao mundo. Tempos virão em que os homens vão se destruir como feras. Naçíµes contra naçíµes, irmãos contra irmãos, inveja, roubo e morte em toda parte. Nas cidades só há ambição e hipocrisia. Os filhos da mata precisam ficar na Casa Verde - a própria mata -, de onde será ouvido o troar do canhão na grande guerra universalâ€, dizia João Maria segundo relatos do escritor Noel Nascimento, membro da Academia Paranaense de Letras.
As histórias do “Monge João Maria†são muitas. Algumas delas são de locais e épocas distintas, mas acreditasse que por nossa região ele vagou durante o final do século XIX e começo do século XX, andando por cidades como Mallet, Irati, Rio Azul, Prudentópolis, Teixeira Soares, Rebouças e Imbituva.
Na época, o Brasil via-se agitado por movimentos populares. De norte a sul manifestaçíµes religiosas ganhavam corpo, como se o país despertasse de um coma profundo. Durante esse período vários personagens cortavam os campos de lado a lado, medicando e aconselhando os caboclos, adquirindo fama de milagrosos e visionários. Talvez, o mais famoso de todos os exemplos seja Antí´nio Conselheiro, do Arraial de Canudos, na Bahia.
No interior do Paraná, uma figura que aparecia coberta de mistério, antes e durante a agitação pela posse da terra na região sul do estado, na divisa contestada por Santa Catarina, foi um andarilho conhecido como o Monge da Lapa.
Mas, na verdade, foram três os monges que freqí¼entaram a região em momentos críticos da história.
João Maria I, João Maria II e João Maria III
O primeiro monge é do século XIX, durante a década de 40, pouco depois das revoltas liberais e pouco antes do término da Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul e daquele tempo poucos são os registros sobre João Maria. Seu sucessor marcou presença nos anos que antecederam í abolição da escravidão e a Proclamação da República; e, finalmente, José Maria, o terceiro monge, surgiu em 1912, quando a Primeira República incentivava a vinda de estrangeiros e a construção de ferrovias.
Entre os dois primeiros monges havia uma forte relação no proceder, a ponto de serem considerados uma só pessoa. “Num dos retratos que corre como sendo do ‘santo’, estampa-se a legenda: ‘João Maria de Jesus, profeta com 188 anos’â€. As explicaçíµes de ambos terem utilizado o mesmo nome dão conta de que o povo chamava todos os monges de “João Mariaâ€. Logo, não sendo João Maria não seria monge.
Então ao adotar o nome de seu predecessor, João Maria de Jesus não forçava fingimento, mas assumia para si a memória de “santo†do primeiro monge. Místico também, ele encontrava assim uma melhor forma de penetração junto í s populaçíµes do interior. A mudança do nome, segundo registro folclóricos, significa o marco de uma transformação na vida, como se fosse uma purificação.
Todo esse misticismo acabou por fazer com que o dia-a-dia do monge ganhasse contornos de simplicidade. Sobre as pregaçíµes de João Maria, a história conta, dizia em suas andanças: “Não tenho caminhos. Viajo com Deus. Quando canso, paro; se tenho fome, comoâ€, explicava í queles mais curiosos, afirmando também não ter medo dos bichos “brabos†do mato, por jamais ter matado um ser vivente. “Plantem vegetais e frutas, pois os climas vão mudar as matas e até os bichos se acabarão por causa da maldade dos homens. Ainda vou mandar muitos monges para salvar os meus povosâ€. Para o monge, toda a cobiça era desaprovada, pois não conduziria o povo í salvação: â€œí‰ crime viver juntando dinheiro a dinheiro, terras a terras, í custa do trabalho alheio. A lei do Rei foi escrita no céu e é a lei de Deusâ€, colocava em seus ensinamentos.
João Maria pregou renúncia aos bens materiais, anunciou castigos, tempestades, epidemias, pragas diversas, entre outros. Sua figura ficou marcada pelo povo do campo, aqueles que careciam de salvação da “vida de misérias†que levavam. Sua origem é incerta. No folhetin “A Vida de João Maria de Jesusâ€, que corria de mão em mão, há relatos de que ele foi Johana Ieshona, nascido na Galiléia e que certa vez teve a visão do Apóstolo Paulo. Mas há também quem diga que o monge se chamava Anastás Marcaf e outros que afirmam que ele não passava de um espião argentino incumbido de vagar por nossas terras e relatar dados da região Sul ao seu governo.
Major Domingos, um dos Comandantes da Defesa da Lapa, certa vez escreveu: “Este cenobita, um velho rijo e seco, anda há quarenta anos perambulando por aquelas passagens. Fura o sertão até a Lagoa Vermelha; de lá corta os campos de Palmas; vai ao Tibagi, vence as florestas e as montanhas dos Agudos; interna-se no Paranapanema; faz lá os seus milagres, as suas prédicas, as suas oraçíµes: dá seus bons conselhos e retorna derivando para as margens do Iguaçu, Jangada e não sei por onde mais. Andarilho de primeira, erra por montes e vales, andrajoso e esquálido, com um bastão apenas por arma. Não há insetos que lhe mordam as carnes, nem feras que lhe moam os ossosâ€.
O monge e suas andanças pela região
Na região Centro Sul, ainda no princípio da colonização, um dos fatos que marcou a cultura popular foi a passagem do monge, o profeta do povo. Seu nome í s vezes sofria uma pequena variação de região para região. João Maria era consenso, hora ou outra precedido pelo adjetivo de pureza que o fazia ser para alguns “São João Mariaâ€. O que variava com uma freqí¼ência maior era o último nome. Em algumas localidades era João Maria do Contestado, em outras João Maria da Lapa, João Maria de Jesus, da Devoção Popular ou de Deus. No entanto, os registros populares dão conta de que em nenhum momento o monge afirmou ser o mesmo, e na cidade de Rio Azul o chamavam “João Maria de Augustinisâ€.
“São João Maria trajava-se de maneira simples, quase maltrapilho. Nas comunidades rioazulenses por onde passou, até hoje encontramos vestígios; a população construiu grutas e oratórios, onde faz pedidos, oraçíµes e agradece os milagres alcançados, atribuídos ao monge. Nos locais onde posava não demorava muito e juntava o povo, que vinha para ouvir seus ensinamentos. Neste pequeno período, ouvia as pessoas e praticava atos de curandeirismoâ€, afirmou Ivani Wandrovieski em relato ao site Paraná da Gente, completando ainda: “Quando se despedia do local que acampou, erguia uma cruz com as iniciais de seu nome e abençoava a água, dando-lhe poderes divinos. Até os dias de hoje, algumas pessoas de Rio Azul acreditam que são curativas e muitas batizam os recém-nascidos nessas águasâ€.
Na história do monge a ficção muitas vezes mescla-se com a realidade. Seu semblante, dizem os contadores de história, era como o de “uma bandeira de paz desfraldada no rostoâ€. Olhos azuis e barba branca, hora ou outra acompanhados pelo chimarrão, três vezes ao dia, ou pelo fumo, que quando faltava era substituído por algumas tragadas em folhas secas. O monge dormia nas ramadas das fazendas ou então debaixo de alguma árvore frondosa. Nas noites de inverno, quando o frio castigava o couro, era obrigado a passar noites em claro, encolhido, aquecendo-se ao fogo. Quando sentia sede perfurava o chão com o seu bastão e dali sairia a água, ou o “olho d´águaâ€, como diz a lenda.
Em Irati, segundo a pesquisa “Campanha do Contestadoâ€, de Peixoto Demerval, citada na revista “Irati, teu nome é Históriaâ€, João Maria era conhecido como “o profeta†pela população, e no povoado o monge fez várias afirmaçíµes: “Vai crescer na direção sul (referindo-se í vila). Carro andará sem cavalo. O homem ouvirá outro lado do mundo e vai voar. Um dia tudo será comum. Haverá muito rasto e pouco pasto. Peste na criação, desconto no mantimento e doença no povo. Tudo o que vier, virá demais. O homem não saberá quando é inverno ou verãoâ€. Pela cidade, de acordo com Edson Moro Rios, membro do Grupo de Estudos em Cultura Italiana Chiaro di Luna, são três os locais onde se encontram as marcas do monge: “Ele passou pelo Pinho de Baixo, pela Cerãmica do Laars e possivelmente pela Praça Edgard Andrade Gomes, sendo que nesta, onde se encontra o aviso ´água contaminada`, estaria um dos olhos-d’água do mongeâ€. Aliás, a crendice popular diz que através da água ou do barro dos olhos-d’água de São João Maria é possível curar de determinadas doenças.
Entre as pessoas da região, alguns garantiam saber de onde vinha: “João Maria é um enviado do céu!â€. E enquanto os ricos se dirigiam í missa do Frei Silvério, lá na gruta estava o monge junto aos pobres; acompanhado por uma bandeira do Divino Espírito Santo, outra da Santa Trindade de Deus e mais um crucifixo com um Cristo em marfim. A história conta que carregava pouca bagagem e que as calças de fundilhos rotos permitiam enxergar as ceroulas e o sexo, o que levou uma beata a reclamar certa vez: “nunca vi santo com as vergonhas de fora!â€. Entre seus pertences estava um longo rosário cujas contas afirmava ser “as lágrimas de Nossa Senhoraâ€. Quando os curiosos perguntavam quem era, a resposta estava na ponta da língua: “Sou um homem como vocês, estou cumprindo uma sentença!â€.
Em Prudentópolis, uma vez - com certa razão - proferiu: “Neste lugar nunca há de faltar águaâ€. Por Mallet, o monge teria abençoado a cidade enquanto outras duas localidades vizinhas não teriam recebido a mesma sorte, sendo amaldiçoados por João Maria. Um desses lugares, segundo consta em carta escrita por Maria Antí´nia Guimarães e seu filho Miguel Vieira Guimarães, ambos moradores do município de Teixeira Soares, teria sido a “Mangueirinhaâ€.
A maldição da Mangueirinha
No tempo da Guerra do Paraguai, Mangueirinha era uma cidade e lá vivia um rapaz com o nome de França, filho do senhor Féliz. Rotineiramente ele seguia até o mercado para fazer algumas compras e uma vez encontrou João Maria, com quem parou para conversar. João Maria disse ao rapaz: “Meu filho, não vá até o mercado porque eu ia passando por lá e eles me apedrejaram, disseram palavríµes e estão dando bordoada na cruz. Vamos voltar!â€.
O rapaz voltou com João Maria e durante o caminho, enquanto conversavam, o monge afirmou ao rapaz que em ano a cidade cujo povo o apedrejara viraria um vassoural. Seguiram caminhando e pela estrada havia um olho-d’água. João Maria o benzeu e disse ao rapaz, “zele por este olho-d’água que vai ser remédio para muitosâ€.
O rapaz foi para casa e contou para o seu pai sobre a conversa que teve com o monge. Durante a noite o senhor Féliz foi ao encontro do profeta. Estava chovendo e segundo diz a lenda ele fez um fogo nos arredores de um cedro. No lugar que ele estava não chovia. São João Maria contou muitas passagens sobre as viagens que fazia. Senhor Féliz havia levado até o monge um maço de couve, mas o monge pegou apenas três folhinhas e agradeceu.
Após a conversa entre o monge e o senhor Féliz, não levou muito tempo e a cidade virou um vassoural, foram embora quase todos.
Em Mangueirinha havia oito comerciantes fortes, delegacia, fórum, serraria e, depois do fato, a localidade quase terminou. O olho-d’água existe até hoje e por lá fizeram uma igreja. Sempre estão visitando aquele lugar.
A história permanece viva
De acordo com a lenda dos profetas tudo isso aconteceu porque uma vez, durante um sonho, um anjo falou a João Maria: “Vá, Caminhe pelo mundo e cumpra sua missão sagrada. í‰ preciso salvar a humanidade pecadoraâ€. E então teve início a peregrinação deste personagem que benzia as fontes, continha epidemias com chá de vassourinhas, celebrava batizados e casamentos, abençoava as plantaçíµes e o gado, fazia vaticínios e desvanecia-se no horizonte.
A história diz que para livrar-se da água das chuvas e da ofensiva de animais, fincava três varas no chão, formando um triãngulo dentro do qual dormia tranqí¼ilo. Diz também que vencia as febres com chá de ervas e que nunca fora picado por serpentes ou colhido pelo jaguar. A qualquer sinal de perigo, punha o crucifixo entre as mãos e repetia três vezes: “São Bento, São Bento, me livre desse bicho peçonhentoâ€.
Ninguém sabe dizer como ou onde morreu, nem onde está enterrado e nem mesmo ousam afirmar com convicção se João Maria de fato morreu. í‰ possível que essa figura que por tanto tempo vagou por essas terras continue ainda a vagar. O imaginário popular vai longe, não tem limites. A história do monge com certeza será contada ainda por geraçíµes e geraçíµes e assim, talvez um dia, ela se torne eterna.
Texto: Luis Rodolfo Lopes
Imagem do Monge: Domínio Público
