Não tendo nada a declarar...

Acordo com uma dor de cabeça, uma dor nas costas e uma dor na alma e no ter que escrever fico pensando que se fossem duas as dores eu já era. Começo a escrever estas mal distribuí­das linhas sentindo as ripas do estribo, devidamente distribuí­das por mim. A profecia do riso na véspera se confirmou só que, menos mal, o choro foi substituí­do por essas dores. Também pudera. A cama que me deram tinha por colchão uma panqueca. O travesseiro um amontoado de pedras.
Na noite anterior, reunida a turma cursante pro jantar, depois dos coraçíµezinhos requentados e do peixe remolhado e das batatas possivelmente congeladas em estado de sobras e recuperadas no microondas, com algum produto que poderia ser farinha de mandioca ou maisena, entre relaxantes disfarçados e olhares atravessados, a involuntária propaganda do travesseiro com tecnologia nasal. Nasal de NASA, que me recupera como que a um texto no limbo, a lembrança da expressão de contrariedade da professora que falando de azia, fora questionada se quem tem problema de azia é asiático. Enfim, pra encurtar o causo, do dito travesseiro, diz-se que é muito bom. Que molda a face do dormidor em sua superfí­cie e acompanha o movimento do rosto sem deformaçíµes, nem no travesseiro e nem no rosto. Aí­ um outro cara diz que até os sinais de expressão desaparecem e eu afirmo, com absoluta segurança, afinal de contas nunca na história desse paí­s se ouviu falar de um travesseiro com essas caracterí­sticas, que promove sonhos maravilhosos e que certamente na compra de cinco ou mais, os sonhos acabam por realizar-se. Pelo menos os do vendedor, identificados uns mil acreditadores das qualidades do travesseiro e dispostos a pagar noventão, já barateados, pois que há algum tempo estava custando uns duzentos e cinqí¼enta contos.
Mas, me interesso particularmente pela extinção das marcas de expressão, uma vez que tenho forte expressão de marcas... Mas enfim, II, que chego depois dos risos e das bobagens provocadoras dos risos, para o banho e dormir. Antes houvera planejado a janta, uma caminhada í  beira do rio Itajaí­ e um sono gostoso e recuperador. No encontro dissolvedor de planos, as horas passadas, e a lembrança dos compromissos de coluna. O banho e na deitação a constatação do colchão-panqueca. Cobertores dobrados e colocados sob a panqueca e a constatação de que muito pouco adiantara. Inevitável encontro com o passado, quando em situaçíµes de casa, coisas parecidas aconteciam e a solução com papelíµes. Pensei até em ligar para a recepção para ver se tinha algum papelão ou alguns jornais para minimizar as ripas do estribo, mas não tinha nem telefone no quarto. Tudo bem será só nessa semana. Semana que deverá ter a duração de meses. Será?
Mas, lei que é lei, pra piorar só se o travesseiro for ruim. Não é. í‰ um pouco pior de ruim e fico imaginando qual lazarento engordí´ o olhar na capacitação para a qual eu estava tão animado. De novo me lembro dessas coisas de inveja e na rabeira do caminhão “que Deus te dê em dobro tudo o que me desejares”. Claro, desejo que você acerte três dezenas na mega. Já para o zoiúdo que olhí´ pra Santa Catarina nessa semana, não podia restringir o olhar í  questão do tempo? Tinha que ampliá-lo ao meu bem-estar? Certamente não me lê e expíµem meus ilustrí­ssimos leitores a essa penúria. Se eu não mereço, e certamente não mereço, esse mal estar, eles, os meus leitores, não merecem essa participação na dor. Não carecia esse desprazer corporal nem esse frio.
Nessa linha das destruiçíµes de olhares maus, pensei em convocar meus leitores, a uma oraçãozinha que fosse, pelos maus-olhadores. Na lembrança das afirmaçíµes merislawianas de que sonho acordado, o medo de ficar rezando sozinho e a automática desconvocação.
Madrugo, a cabeça estourando, o código de barras nas costas, a coluna o café. O barulhinho de água escorrendo no pequeno aquário, o barulhão dos talheres recolhidos e em estado de lavagem, um alarme disparado, o sol. A aula, o mundo circundante, a vida que continua e a certeza mais do que absoluta da bondade de Deus.