

No palco enorme do carnaval enorme de fantasias enormes, o som gigante para a alegria idem. Os agitos e pulos, os gritos e apitos expressavam a alegria própria da necessária catarse anual. No canto do imenso palco os olhinhos de coruja solitária miravam no bracinho amiudado da velhinha que na outra extremidade do circo rodopiava segurando um pacotinho amarelado com três bananas e uma garrafinha vazia de água mineral. Ela, a velhinha, trazia na boca um cigarro de palha fumado pela metade e apagado. Não olhava para cima; não olhava para baixo; não olhava para o alto nem para os lados. Seu olhar era fixo para a frente, sem brilho nem nenhuma luminosidade. Seus cabelos pareciam um pelêgo mal cuidado; sua pele um tecido amassado. Vestia apenas um saco de estopa mal rasgado nas extremidades, suficientes apenas para passar os bracinhos amiudados que amarravam os olhinhos apequenados da corujinha solitária que pensava a velhinha se achar a rainha dos errantes e cegos e retirantes e, na analogia ao Zeppelin reconhecê-la, a velhinha, o próprio espelho, da corujinha. Desviando o olhar para mais perto e saindo do espelho melancólico porque decadente, mira o beijo inacabado do casal apaixonado conhecido no início da música que remetia aos salíµes dos bons tempos, quando carnaval sinonimava encontro, exaltava criação, inspirava desejo. Uma leve e breve lembrança dum fragmento de encontro aturdiu o olhar desviado para as mãos masculinas que se perdiam na farta cabeleira da garota que abraçava com a sofreguidão com que era abraçada. A aparição brusca de uma caveira interrompe o prazer de olhar e desejar que as mãos que abraçam abraquem. E no repúdio mentiroso do desejo interrompido pelo riso alto e solto e falso, a incredulidade diante da imensa adaga rebrilhante, levantada para atingir as costas da garota que tinha mãos masculinas a invadir-lhe a cabeleira farta. Um brilho de raio confirmando a mortalidade concentrada no fio e as costas abertas pela famigerada morte. A caveira no chão; a adaga ensangí¼entada no chão; o corpo inerte da garota com as costas abertas no chão. O olhar masculino apavorado e os gritos de pavor misturados ao nada da música alta começada tarde. Braços e andares frouxos e o telefone acordando para a quarta-feira de cinzas;
- Sem a menor dúvida de que é a senhora, obrigado, dona Merislawa, por me acordar desse sonho-pesadelo. Como vai?
- Alí´? í‰ o Senhor Robis?
- Não adianta disfarçar a voz! Eu sei que é a senhora!
- Por favor!? í‰ da residência do Senhor Robis? Sinto muito senhor, mas aqui não é a Dona Merislawa a quem o senhor se referiu. í‰ da companhia de produtos de alongamentos musculares e estou apenas ligando para confirmar algumas informaçíµes para promovermos a entrega das duas caixas de comprimidos que o tornarão um novo homem.
- Quem sente muito sou eu, de não ser a Dona Merislawa aí do outro lado. E quem vai sentir muito é a senhora, ou senhorita, porque essa confirmação desejada não se concretizará. Eu não fiz nenhuma encomenda de nenhum produto para alongar nada e se não fosse pelo fato de ter me acordado de um pesadelo eu acabaria sendo grosso com a senhora.
- Senhorita.
- Que seja. Senhorita!
- Sinto muito senhor, mas acho que o senhor não está entendendo. Eu não estou confirmando o pedido, que já está feito. Eu estou ligando para confirmar o nome, o endereço e outros pequenos detalhes para...
- Para nada! Não quero nada desses produtos e não adianta ligar de novo que eu não vou atender e se houver insistência vou pedir uma indenização por danos morais; assédio ou sei lá o quê. Não ligue de novo, porque eu só vou dar mais um telefonema, para uma certa amiga, e vou tirar a tomada... SENHORITA!
- Senhor Robis... Senhor Robis???