Somente outras coisas

Então o piá me pergunta quando vou começar as aulas de redação. Fico espantado porque o local da pergunta não tinha nada a ver. Acho mesmo que ele nem queria fazer a pergunta e a fez para disfarçar o desconforto do flagra pela tragada mal interrompida. “Não tenho idéia. Se tiver certeza de que não será preciso alterar os dias das aulas por conta de outros compromissos de trabalho espero começar após o carnaval.” Respondi sem muita convicção, muito mais para não demonstrar que não o reconheci ou que simplesmente não o conhecia. “O senhor lembra de mim, né?”, perguntou-me como que a dizer que percebeu que eu não o reconhecera, e emendou, para evitar o constrangimento da resposta mentirosa, e descoberta mentirosa, “sou o fulano, neto da dona...! Lembra?”. “Claro! E aí­? Nossa! Como você está diferente! Dificilmente eu o reconheceria. Deu uma mudada radical no visual, hein? E a sua vó, como vai?” Chega um outro mais piá que continuava no trago: “Fulano, vai ficá aí­ no patino? Vem terminá o barato aqui. Ou vai dizê que não qué mais?” í‰ claro que a no flash da lembrança a Dona Merislawa me aparece com a convicção própria de quem não precisa de aulas de redação “Tá vendo seu Robis”? E emendado na lembrança, só que em outro flash, um pouco mais melancólico ou muito mais melancólico, o professor absolutamente descrente afirmando que não tem mais jeito. Verdade, não tem mais jeito! Mas só pra quem não quer que tenha jeito. Pra quem quer que tenha tem. E por mais que pareça uma frase mal interpretada e mal reconstruí­da e mal qualquer outra coisa é isso mesmo. Relendo, a imposição de outra lembrança cheia de sorriso: “Cara, que massa aquelas coisas que você escreveu, assim, sem parágrafo. Tudo diferente e ao contrário do que você disse aquela vez na sala. Não consigo entender logo e leio de novo e outra vez e fico pensando que tem um monte de gente que pensa que você é pirado! Mas eu presto atenção na releitura e consigo separar as idéias. Mas acho que se você aumentasse o tamanho das letras as pessoas iam te ler mais. Até você já escreveu uma vez isso. Lembra?” E na incógnita da dúvida das estruturas das idéias um virtual encantamento na imagem gerada de que é possí­vel ser feliz, apesar da desconstrução, sem que isso represente a felicidade desconstruí­da. Tinha que começar um outro parágrafo, que não seria o primeiro que já deveria ter se instalado para que as idéias fossem mais facilmente entendidas, para retomar a lembrança das exposiçíµes das dúvidas afirmadas e que dizem respeito í  compreensão do que se desejou desideiar. A feição de sinceridade enfeitada por um esboço de sorriso e um brilho no olhar que confirmava a sinceridade. E a convicção de que é possí­vel ser entendido sem os parágrafos e sem a escravização dos acentos que traem e mediocrizam e anulam e nem tenho palavras para dizer. A figura embigodada entronizada na erudição, o charuto emoldurando o desdém diante do jornal aberto. Bobo. Vai apodrecer e essa cueca de cetim vai durar mais do que a lembrança das aulas julgadas memoráveis. Que memoráveis que nada! Havia sim um fingimento coletivo de que se prestava atenção e que se entendia. E o miserável da nota vermelha explicando de todas as formas que não conseguira realizar o trabalho dentro da metodologia exigida e o outro amigo, com cara de condolência pulsando na alma, aliviado por ter conseguido o dinheiro para pagar a nota. Do outro lado da fantasia muitas histórias de fazer rir. A formação e o ódio de quem acha que não pode nada em nome da regra. E o sinal e a correria e o cachorro quente que esfriou e a salada com uma larvinha ecológica jogada pra sacanear. E a pergunta angular desconstruindo convicçíµes e remetendo í s felicidades reconstruí­das. Que dia! Quantas idéias! Da lembrança do piá ao assim, que otimismo! Que tudo! Crash! Uróbulo! í‰ assim?