

Acampamento enorme í beira do rio, gente dormindo por toda a parte dividindo cobertas e camas. Muita gente, muita cama, muita coberta, muito vento e muito barulho de água. Uma almona levanta-se e brada a desordem que faz os maiores puxarem as cobertas dos menores desprotegendo-os. Na revolta, a figura inacabada levanta-se e vai até uma cerca velha com uma porteira arrebentada. Levanta os restos da madeira apodrecida e tenta fechar o que não é possível. Um bandinho de jovens passa barulhento pela estrada que não havia e seguem barulhentos com seus violíµes e risos. Um olhar de melancolia acompanha-os até a curva da estrada que não havia. Um vulto das sombras personifica-se do nada e lhe vem ao encontro ameaçadoramente. A figura, agora cabada, esmurra-lhe a pança provocando-lhe ameaçadora e desconcertante gargalhada. Um outro ser, também das sombras - só podia ser das sombras pois lembrava uma hiena, um macaco, um homem -pula dum galho de uma árvore que não estava ali e reforça a ameaça. Estremecida, a figura posiciona-se para o ataque enquanto os vultos a rodeiam ameaçadoramente. Da terra surge uma parede trazendo um estranho que lhe sorri estendendo-lhe a mão num gesto de cumplicidade. Os vultos desaparecem e na outra extremidade da cerca que reaparece no cenário uma chuva de flechas incandescentes lhes cai sobre os corpos paralisados sem provocar-lhes dor. Uma legião de arqueiros mirins avança sobre eles liderados por uma figura conhecida mas não lembrada que lhes dirige o olhar e palavras incompreensíveis mas ameaçadoras que explicam a razão do fim anunciado mas incompreendido e o vento lhe traz a mensagem de que nas folhas de uma árvore que não estava ali aparecerão as respostas e as explicaçíµes para o caos que acontecia. Mas que era necessário pegar as folha que se soltavam antes que atingissem o chão. Ele olha e identifica uma folha e a vê desprender-se da árvore e tem certeza de que está ali a resposta de alguma coisa que ele não sabe o quê. Toda a legião de arqueiros mirins e mais a figura conhecida que não era lembrada se píµem em riso e o apontam como se apontassem para o infortúnio e ele mergulha para apanhar a folha antes que tocasse o chão e as figuras vão se esvaindo em riso sem fazer barulho e tudo parece distanciar-se e as figuras e o telefone í mão e a respiração ofegante e o suor:
- Dona Mirislawa, brigado! Acho queu tava caindo no abismo. Acho queu ia morrê!
- Seu Robis? Você está bem?
- Agora acho que tí´. Como cocê aduvinhí´ queu tava nos apuro?
- Bem, você sabe. Depois de tudo o que nos aconteceu acho que nos conhecemos suficientemente bem para irmos além das relaçíµes formais que caracterizam uma grande amizade. E justamente por ela ser muito grande é que podemos nos sentir muito í vontade para abordarmos alguns tópicos dessas, digamos assim, nuances, que caracterizam essa relação, construída com as mais consistentes consideraçíµes e valores; expressíµes nítidas da maturidade definida pela dor da experiência de quem sente-se permanentemente confrontada por tudo e por todos...
- Dona Mirislawa, disculpe... do quê ca sinhora tá falando? Será queu não pudia...
- Você poderia. Poderia! Sim você poderia. E é assim, no futuro do passado porque no presente falta-lhe a confiança indispensável para...
- Dona Mirislawa... disculpe de novo, mais será ca sinhora não pudia... Dona Mirislawa... Dona Mirislawa... que qué isso na sua mão? O quê ca sinhora vai cortá? Páre! Não misfaqueie... nóis samo amigo!!! Que baruio qué esse quando a sinhora levanta o braço? Dona Mirislawa, têm uma mola no seu sovaco! Dona Mirislawa? Não misgí¼eleie! Pra quê cá sinhora... óie o sangue do churiço!!! Dona Mirislawa! Dona Mirislawa! Dona Mirislawa!
- Alí´? Por favor diga que é a senhora, Dona Merislawa! Chega de pesadelos! í‰ a senhora?