

Cabe a cada um decidir o que é melhor para si. Nem sempre a escolha se dá í luz da consciência, nem sempre a decisão resulta do exercício lúcido da responsabilidade, nem sempre a opção corresponde í lógica determinante dos valores comuns.
No primeiro caso não se trata de inconsciência, mas de um valor estabelecido paralelamente aos reconhecidos e dominados. Há consciência. Mas ela transgride, ocultada pela sombra do que pode ser considerado imoral, aos padríµes de aceitação e mantém-se viva, fascinando e fascinada ante as possibilidades de ser reconhecida, ser descoberta, ser atacada, ser destruída. Transforma-se a e em si mesmo. Engrandece-se. Reflete-se nas diferentes possibilidades que são ricas ou puro lixo, de acordo com a capacidade do olhar que vê. Vai das nuvens ao esgoto num piscar. í‰ absolutamente autí´noma. í‰ antagí´nica. Mas é corajosa. Reconhecidamente corajosa... Alimenta-se da coragem e do risco e o limite da sua pretensão confunde-se com a atitude transformadora da sua dor. Emblematiza-se. Preserva-se na alma e escancara-se no sorriso. Sofistica-se na dor e simplifica-se na exposição. Sabe de si.
No segundo caso, dois valores absolutamente constituintes do caráter se fundem, ainda que mantendo-se distintos, mas não conseguem interpor-se í força da sedução perigosa. Não há interferência negativa no caráter. Não há anulação do bem ou do mal. Há o bem, há o mal. E o bem continuará sendo bem e o mal continuará sendo mal, mesmo alimentando-se um do outro. São dependentes entre si e essa dependência gera conflitos nem sempre resolvíveis, tais como o reconhecerem-se dependentes e não haver transformação possível. Equilibram-se fragilmente na quase invisível linha do sonho, travestida de corrente forte das tragédias vivenciadas, projetadas, assistidas e até desejadas algumas vezes quando deslizadas no córrego comum das lágrimas disfarçadas. Fazem por acontecer na tragicí´mica regra passada a ferro e amassada depois para ser posta fora. Agasalham-se com o oportuno manto das convicçíµes e penduram-se no cabide quebrado porque os cupins comeram a madeira. Respondem alto e alto são inquiridos. Olhar convexo.
No terceiro caso a compreensão da falência é o pilar hipócrita da sustentação que a nega. Brilho e claridade superficiais; aclamaçíµes falsas das verdades distorcidas; maquiagem inútil na existência inútil. E a inutilidade de quase nada ocupando o espaço de quase tudo. Atritos e negaçíµes na convivência forçada das divergências, potencializadas pela oportuna moldura barroca adornando a imagem pós-moderna da aparência desgastada e carcomida pelo cansaço e pelo tempo. E o pensamento pequeno determinando as grandes manutençíµes. E a covardia e a apatia e a resignação odiosa correndo nas veias. E o milagre reconstituindo-se nas realidades lapidadas. E o coração pulsante no peito aberto do guerreiro lutador que via a luz no fim do túnel e o fim do túnel era a imagem da sua coragem refletida no espelho opaco das existência decadentes. Buscas permanentes nas ostras estragadas. Baús de dobríµes falsos. Quarta folha de um trevo de três. Pétala mal formada da mais linda flor arrancada. Gota de orvalho escorrendo livre pelo espinho traiçoeiro. Mensagem desbotada na garrafa intacta recolhida no imenso oceano da banheira rasa. O chacoalhar da cabeça mascarando a incompreensão. O desconforto do papel amassado atirado ao lixo e caído fora do lixo. Fragmento do universo.
A notícia má o é porque não se deixou modificar pela mão invisível de si. A revolta expressa na aparência contrariada do olhar ameaçador confirma a impossibilidade da transformação e esconde sorrateiramente a tênue ternura que pensou-se verdadeira e agora morta e empalhada na lembrança inútil porque não provoca nem saudade.
Escolha, decisão, opção. Caráter inconsciente do lugar-comum.