

Nietzsche, no livro Zaratrustra, nos propíµe três níveis de elevação do espírito, ou seja três graus pelos quais devemos passar. Estes níveis são: o camelo, o leão e a criança.
Diríamos que estas transformaçíµes são a passagem de um modo de ser para o outro. Não que houvesse uma metamorfose física, material. Ela ocorre no ãmbito espiritual e de forma cíclica, onde há um constante girar saindo e transpondo o modo de ser camelo, passando pelo modo de ser leão, chegando ao ser criança, de maneira que um transpíµe o outro, sem que a identidade de cada um se perca. Pois para o espírito chegar a ser leão ele tem de ser totalmente camelo. E para chegar a ser criança é necessário que ele seja leão, em plenitude.
Como o espírito age enquanto camelo? Ele vive estagnado na sua natureza, faz aquilo que lhe é devido fazer. Não se questiona, simplesmente vive. Faz tudo que lhe é imposto, sem ao menos saber o que é imposição, se o dono dá a ordem de ir, ele vai; se a ordem for para vir, ele vem. O camelo vive na alienação de seu conhecimento, não tem olhos para ver longe, o que existe é aquilo que está aí. Normas e imposiçíµes são vida para ele.
Diríamos, de acordo com o texto, que pesado é fazer-se humilde mesmo tendo, com isto o orgulho ferido, ou seja morrer para uma coisa que lhe é óbvia, aceitar a idéia alheia mesmo esta lhe parecendo não ser a correta. E ainda, exaltar as suas limitaçíµes, seus defeitos, rindo-se de sua sabedoria. E no momento da necessidade dar as costas a ajuda, mantendo relaçíµes somente com aqueles que não o ouvem. E ainda amar, no caso do camelo, o seu dono mesmo quando este bate-lhe e o faz trabalhar horas a fio. Isto tudo faz o espírito carregador.
E na solidão do deserto, no silêncio das coisas, ocorre a segunda transformação, o camelo se torna leão. í‰ necessário, para que haja transformação, a parada do camelo. Quando ele pára e entra no deserto ele se depara consigo mesmo, e diz: “quem sou eu?†Vendo quem ele está sendo, sente a necessidade de sair daquele pequeno mundo que vivia e diz: “eu quero ser o senhor de mim mesmoâ€. Ele quer a liberdade, não mais viver submetido a imposição, quer decidir-se por tudo, quer poder escolher, gerenciar-se, ser dono de si.
í‰ somente quando o camelo assume em tudo sua condição, que ele se torna livre. Se torna leão sem esquecer que foi camelo. Antes ele integra-se com o ser leão, transpondo o camelo. Porém o ser camelo continua inerente em sua alma.
Para que isso ocorra realmente ele precisa encontrar-se com seu grande inimigo, no caso o dono, “Tu Devesâ€. Agora já não mais camelo e sim leão. O seu antigo senhor lhe diz: “tu deves†e ele responde “eu queroâ€. Neste instante arma-se uma luta. í‰ a vontade do seu antigo senhor contra a sua vontade. O que antes era verdade, enquanto camelo, agora lhe é puro sonho e loucura.
A última passagem é o momento em que o leão se torna criança. Mas por que o leão, que é livre, senhor de si, deve tornar-se criança? O que a criança pode fazer que o leão não podia?
A criança é simples, é origem, é sempre nova; é um movimento que gira sobre si, uma descoberta constante. í‰ o viver na realidade, sendo a própria realidade. Ela não quer ser dona de nada, mas pretende ter tudo. Tudo que quer consegue, mas para isso nada píµe a perder, pois nada lhe pertence. Não busca viver na troca das coisas, dos bens. A criança e a realidade são o mesmo. A criança é dos três a única capaz de ser. Ela representa o lúdico da vida, a alegria de viver livre. O camelo e o leão jamais conhecerão a pura liberdade, pois sua liberdade sempre esteve condicionada, ou pela vontade de um senhor “Tu Deves†ou pela vontade do próprio ser “Eu queroâ€. A criança porém não se preocupa nem com a sua vontade e nem com a do senhor. Ela é o que deve ser, não conhece o poder o “Tu Deves†e nem a ousadia do “Eu queroâ€.
Para chegar ao mais alto nível de elevação é necessário silenciar-se no mais profundo e encontrar-se com o ser criança.