A velha cidade

Há muitos (e bota muitos nisso) anos, a cidade era mais sorridente, e mais ingênua. Tudo era muito longe e mais difícil. Curitiba era muiiittooo longe. Uma ligação interurbana, como a local, teria que passar pela telefonista que nos pedia o número a ser chamado, era muiittoo difícil e, note, são só dois exemplos.
Não havia televisão, e as noticias com imagem em movimento só nos jornais de cinema. As coisas demoravam a acontecer. Claro que num cenário desses abriam-se oportunidades para aventureiros – daqui pra frente, picaretas – que aqui aportavam pra explorar a tal da ingenuidade então vigente. Irati sempre foi pródiga com estrangeiros e, claro, nem todos podem ser incluídos no rol dos picaretas; temos iratienses adotados que ajudaram a cidade se transformar no que é. Mas voltando, o cara falava fácil. Chegou escorado, em parte, por um jornalão da capital, e estabeleceu-se. Montou um escritório que seria a sucursal do jornal, e saiu a campo. Deu-se bem. Organizou festas, concursos, recepções, muita champanha, fotografia, matéria de jornal e, pra resumir, deitou e rolou. Mas, como tudo na vida chega ao seu final (Haroldo Barbosa e Luis Reis), um dia ele anoiteceu e não amanheceu. Mas era um picareta, como diríamos, elegante. Houve outros, mas a cidade já estava vacinada, não totalmente, mas estava. Mas por que lembro disso a estas alturas do campeonato? Porque, me parece, a raça não está extinta. To sentindo um cheiro do bicho no ar. Só que, se ajudar, a gente ta mais calejado com a arte. Os antigos – os picaretas antigos – tinham método. Primeiro tratavam a terra, plantavam e colhiam. Os de hoje, me parece, preferem ganhar no grito, no carteiraço. E no grito, eu sou mais eu. Essa história de montar em passado recente pra dizer que é, não bate. Ou é, e ta lá, no bem bom, ou é mais um aqui, e de boca calada. Ou baixa a bola e aprende a conviver com o meio, educadamente, ou vai apanhar de cinta na rua.
E não tem essa de conheço (eu também conheço, e talvez bem mais) não-sei-quem, e trabalhei não sei aonde, com fulano. Aqui é aqui, ou se enquadra e vai fazer parte, ou vai ser convidado a voltar pro local de origem. Querem saber se é recado, é! E as partes interessadas sabem de quem e pra quem é o recado.
F1 – É deprimente o comportamento do Rubens Barrichelo. De chapéu na mão, pedindo pelo amor de Deus pra ficar na Honda. Acho que o Rubens podia ter um pouco mais de respeito pelo passado dele. Duas vezes vice-campeão do mundo – dentro de um figurino que ele experimentou e se propôs a usar -, hoje é o piloto que mais participou de corridas de F1. Hoje, rico, não tem necessidade de ficar apregoando sua experiência de acertador de carros, e de sua vontade de continuar no circo. Não tem que se submeter à degradação de ficar pedindo emprego a quem já se propôs a dar emprego a um de dois – Lucas di Grassi ou Bruno Senna - prováveis substitutos seus, do jeito que tá pedindo. É um final triste e consentido.