Mais de 3 mil paranaenses aguardam na fila de transplantes
Irati – O momento da perda de um ente querido pode não significar o fim dessa vida: uma chama pode continuar a brilhar em outro corpo, isso é possível a partir da doação de órgão. Atualmente, mais de três mil pessoas aguardam por um transplante no Paraná. Na Santa Casa de Irati, funciona desde 2010 a Comissão de Captação de Tecidos Oculares, responsável pela coleta de córneas e globos oculares de pacientes que tenham falecido e sido enquadrados como potenciais doadores. A Comissão é coordenada pela enfermeira Cristiana Maria Schvaidak. A coordenadora conta que antes de o projeto ser iniciado na cidade, primeiramente o hospital teve que cumprir as exigências da Central Estadual de Transplantes e possuir uma equipe multidisciplinar com: médico, enfermeiro, assistente social e psicólogo. “O segundo passo era passar pelo treinamento em Curitiba, porque o enfermeiro é responsável pela coleta”, explica Cristiana.
Somente dez meses depois que o curso foi feito, ocorreu a primeira retirada de globo ocular para doação. “Antes tivemos mais dois potenciais doadores, mas a família não autorizou”, lembra Cristina.

Assistente social Ana Claudia (à direita) e a coordenadora Cristiana Schvaidak (à esquerda) da Comissão de Captação de Tecidos Oculares
Desde 2010, foram feitas 18 abordagens com parentes de potenciais doadores e 14 dessas famílias autorizaram a coleta. “O nosso trabalho é bem sério e elogiado pela Central de Transplantes, em relação ao sucesso da abordagem e da coleta. Aqui no hospital, 100% dos potenciais doadores são abordados, reforça a coordenadora.
Quando o paciente está internado e falece, a família é chamada ao hospital para conversar. A partir daí a assistente social ou a psicóloga abordam os familiares presentes acerca da possibilidade da captação dos tecidos oculares, é exposto como é feito o serviço, sobre a possibilidade de o doador ajudar duas pessoas. “Também avisamos que não vai danificar o rosto do doador, que não vai demorar muito e que se não for do desejo da família, que nada será imposto, ninguém é forçado a doar. E tudo depende da conscientização da família mesmo”, relata a assistente social Ana Claudia de Andrade.
De acordo com a lista de receptores aguardando transplantes no Estado, existem 65 pessoas na espera – com os exames médicos prontos – pela doação de córnea, são classificados como receptores ativos. E 206 pessoas semi ativas, ou seja, não estão com os exames médicos prontos. Todas as córneas e os globos oculares retirados em Irati vão para Curitiba, isso acontece “porque a nossa fila está em Curitiba. A fila é regionalizada, não há uma para o Paraná inteiro. Então Curitiba tem uma fila, Londrina tem outra, e Cascavel tem mais outra. E os nossos pacientes que precisam fazer o transplantes de córnea estão na fila de Curitiba, eles são mandados pra lá”, orienta a coordenadora Cristiana.
Mas nem toda pessoa pode ser uma doadora de córnea ou globo ocular. Os critérios seguidos são: a idade do potencial doador pode variar de nove anos até 65. Ele não poderá ser doador se ficou internado por mais de sete dias; se possuía doença viral (como HIV ou hepatite); portador de câncer; teve morte por afogamento ou causa desconhecida. Também não pode ter tido múltiplos parceiros sexuais, infecção generalizada, ou infecção no olho, entre outros quesitos. Um potencial doador pode surgir a qualquer momento, então a equipe da Santa Casa fica em plantão durante as 24 horas do dia. “Já aconteceu de nos chamarem às duas horas da manhã e a família não autorizar”, revela Cristiana. E ela ainda esclarece: “Os potenciais doadores são normalmente pessoas vitimadas por acidente, por morte violenta, e enfarto”. Como o momento é delicado, “qualquer palavra mal colocada na hora de um contato com a família pode por tudo a perder”, reforça a assistente social Ana.
Apenas é realizada a coleta após a confirmação da morte de coração parado. Até 6 horas depois da morte é possível fazer a retirada e num período de até 24 horas o globo ocular deve ser entregue em Curitiba. Um motorista fica de plantão na 4ª Regional de Saúde para atender a esses casos, então é ligado para a Central Estadual de Transplantes e avisado que está sendo enviado.
Depois de autorizada, a coleta é feita em local específico, com material apropriado e não demora mais do que uma hora. “Retiramos o globo ocular inteiro, mandamos para Curitiba e lá eles aproveitam tanto a córnea, quanto a esclera (parte branca do olho), que também é utilizada para fazer curativo ou transplante”, indica Cristiana. Em seguida, uma prótese é colocada no local, ela tem o formato do olho e é feita com um material próprio para absorver o líquido, para que não inche. “A retirada é feita com todo o cuidado para que nem o cílio seja arrancado, tem que ficar perfeito, e satisfazer a família, depois que é finalizado o procedimento, a família é convidada para ver que a reconstituição ficou certinha, de acordo. E ainda fornecemos os nossos números para que se caso aconteça alguma coisa, que possam entrar em contato. A única coisa que não é recomendado fazer é tentar abrir o olho do doador, porque é utilizado uma cola especial para colar. Então orientamos a família a não mexer, porque pode causar hematoma na região, sangrar, ou não fechar mais”, aponta Cristiana.
De acordo com a coordenadora, anteriormente a família do doador podia saber para quem a córnea era doada, mas atualmente a situação é outra: passados seis meses desde a retirada, a família pode saber se o transplante foi efetivado ou não. Basta entrar em contato com a Central Estadual de Transplantes.
Como classificar um potencial doador
Não é porque a pessoa é uma potencial doadora, que a córnea será transplantada. Juntamente com a córnea é encaminhado um pouco de sangue do doador junto. E essa córnea só é liberada para transplante depois de vários exames, de analisada a qualidade da córnea. “No momento da coleta o profissional pode colocar tudo a perder, se eu passar o fiozinho da gaze em cima da córnea, eu danifico ela e não vai para doação. Toda correria acaba sendo em vão”, conta a coordenadora. Por isso é importante o bom treinamento dos profissionais que atuarão na retirada.
Outro ponto que precisa ser reforçado é que não é qualquer familiar que pode autorizar a retirada de órgãos. É necessário que seja parente de primeiro grau. “Não pode ser cunhado, primo, sobrinho, tem que ser maior de idade, possuir documentação própria e a do doador. Eu perdi uma captação há uma semana porque a família não tinha documento da potencial doadora”, justifica a assistente social. Qualquer pessoa pode ser doadora de órgãos, basta expressar durante a sua vida o interesse. “Agora não vale mais deixar na Carteira Nacional de Habilitação e nem registrado em cartório, nem em testamento”, avisa Cristiana.
“Não podemos impor de maneira alguma a doação, sabemos que é um momento de revolta, de dor, mas é justo naquele momento que precisamos da decisão dos parentes. E doar é um ato de amor”, finaliza Ana Claudia.
Se alguém tiver dúvida ou interesse em receber mais informações, pode entrar em contato pelo telefone (42) 3423 1311, com a Comissão de Captação de Tecidos Oculares da Santa Casa.

Texto e fotos: Gisele Manjurma, Da Redação
Publicado na edição 606, 15 de novembro de 2012.
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2 Comentários
Gostaria de saber se é possivel fazer um transplante do globo ocular inteiro, pois tenho problema na macula do meu olho esquerdo tenho um sonho de resolver esse problema.
Grato,
Ronald
Olá, Ronald, você pode tirar essa dúvida junto à Comissão de Captação de Tecidos Oculares, da Santa Casa de Irati, pelo telefone (42) 3423-1311.
Obrigado.