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Sobrecarregadas, mães solo enfrentam desafios e adversidades pelo bem-estar dos filhos

Diante das exigências da maternidade e da pressão de equilibrar múltiplos papéis, as mães solo enfrentam uma jornada repleta de desafios e sobrecargas.

10/05/2024

Sobrecarregadas, mães solo enfrentam desafios e adversidades pelo bem-estar dos filhos

Marici Aparecida Jonak, auxiliar de produção e mãe de duas filhas, conta como foram os desafios e alegrias da maternidade. Ela descreve a emoção e apreensão de criar as filhas sozinha desde o nascimento até elas se tornarem adultas.  “O desafio maior é quando nasce, você olha aquela pessoa ali, você pensa se é capaz de criar essa criança, porque é um serzinho mais sensível que um ovo, aquele anjo que você tem como responsabilidade tua. Ali é o momento, é o auge da alegria de ver teu filho, mas também vem aquela apreensão de como será”, descreve.

Assim como tantas outras mães, Marici precisou conciliar a carreira profissional, com a responsabilidade pelo cuidado das crianças. “Você tem que se dividir em mil. Eu trabalhava em período integral, era o dia todo, eu tinha um horário a cumprir; eu tinha que pegar elas na escola, eu tinha que ajudar na tarefa escolar, o ‘eu’ ficou sempre para trás, sempre era tudo para elas, senão eu não conseguia dar uma atenção”, recorda.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) o número de mães solo, ou seja, aquelas que cuidam sozinhas de seus filhos, aumentou 17%, passando de 9,6 milhões em 2012 para mais de 11 milhões em 2022.

Neste contexto vive Nathana Oconoski – mãe de dois filhos, um de 3 e outro de 9 anos –, que  busca sempre equilibrar o trabalho e a maternidade.  Ela atua na área de contabilidade e sua rotina profissional é marcada por uma carga intensa de responsabilidades e tensões. “Minha vida profissional é bastante agitada. Eu trabalho com contabilidade, então existe muita tensão, muita responsabilidade. Os meus principais desafios são os casos esporádicos que acontecem na família. Quando está tudo bem, está tudo ótimo. Se está indo bem na escola, se não estão doentes, aí eu consigo muito bem conciliar o meu trabalho com meus filhos. Porém, quando acontecem os imprevistos, vem os desafios, porque se não tiver uma aula, se não estiverem bem, eu tenho que correr para ver com quem eu vou deixar ou preciso faltar o serviço”, conta.

Intimamente ligada ao conceito de responsabilidade, Nathana ressalta como qualquer falha em uma dessas esferas — emprego ou maternidade — impacta em seu bem-estar.  “O comprometimento de não falhar em ambas as partes pesa bastante, porque eu me considero com uma pessoa muito responsável. Então me afeta muito quando está falhando o lado mãe ou o lado colaborador da empresa. Eu tenho que tentar sempre fazer com que não falhem essas partes.”

Sem tempo para si mesmas

É comum que muitas mães solo, devido às exigências de suas rotinas de trabalho, responsabilidades parentais e afazeres domésticos, acabem sobrecarregadas de tarefas e se colocando em segundo plano. Muitas delas priorizam o desenvolvimento dos filhos em detrimento de suas próprias necessidades e aspirações pessoais.

Marici conta que conseguia recarregar suas energias quando saía para brincar com as filhas. Em meio à agitação da rotina, esses momentos de diversão se tornavam um refúgio de tranquilidade e conexão, onde podia aproveitar a companhia das meninas. “O momento em que eu mais descansava era quando eu pegava elas e saía para brincar, levava no parque ou algum lugar que tinha para levar elas brincarem. Era um momento que eu me distraía com elas e relaxava, porque outro momento não tinha como”, relembra.

Nathana também comenta a falta de tempo para si mesma e a constante priorização de suas responsabilidades como mãe solo. “Tempo para mim eu nunca tive. Eu sempre coloquei meus filhos como prioridade na minha vida. Eu me deixei por muitos anos, então só vem a profissão de mãe. Eu coloco eles como prioridade na minha vida. É difícil? É difícil. Quando você vê as pessoas rotulando a maternidade, romantizando, mal sabem eles o quanto é difícil você ser mãe solo, porque machuca muito. Muitas vezes você não pode dar tudo que você gostaria de dar para teu filho, mas o principal, a gente tenta fazer o máximo, tira da gente para dar pra eles”, explica.

Impactos emocionais

As mães solo frequentemente enfrentam uma montanha-russa emocional ao equilibrar múltiplas responsabilidades. A pressão de garantir o bem-estar dos filhos, manter a estabilidade no trabalho e lidar com imprevistos pode gerar um aumento significativo na ansiedade e no estresse. “O que mais é desafiador é essa questão de você fazer tudo sozinho, você torcer para que nada aconteça no dia, que corra tudo como você planejou, que fique bem na escola, que não fique doente, que não aconteça nada assim, ou que não precise estender no serviço ou surja algo que saia da nossa rotina. Isso acaba com o emocional da gente, porque eu fico ansiosa, são várias situações que desafiam, e eu sou uma pessoa que eu peco muito em pedir ajuda para os outros, porque eu não gosto de incomodar”, detalha Nathana.

A psicóloga clínica Paola Padilha dos Anjos Velozo destaca uma realidade preocupante: mulheres que enfrentam sobrecargas de responsabilidades têm maior probabilidade de desenvolver transtornos psiquiátricos, como ansiedade e depressão, em comparação aos homens. “Há pesquisas que comprovam que mulheres têm 40% mais chances de desenvolver transtornos psiquiátricos como ansiedade e depressão se comparado aos homens e um dos principais fatores que colaboram para esse índice é a sobrecarga de trabalho que a mulher enfrenta, muitas vezes com uma tripla jornada (cuidar da casa e filhos, trabalhar fora e estudar). Se pensarmos em uma mãe solo, sem rede de apoio, essa probabilidade pode ser ainda maior”, alerta.

Paola destaca a importância de a mulher estar atenta aos sinais iniciais de estresse e exaustão. Ela adverte ainda que, se não forem tratados com o cuidado e a atenção devidos, esses indícios podem evoluir para quadros mais graves. “Os primeiros sinais que a mulher precisa ficar atenta são irritabilidade ou tristeza excessiva e frequente cansaço extremo, dores de cabeça constantes, lapsos de memória corriqueiros. Esses são os sintomas mais básicos que o corpo apresenta em reação ao estresse e a exaustão. Se esses sintomas iniciais não forem tratados com o devido cuidado e atenção, eles podem evoluir para casos graves de ansiedade e depressão”, descreve.

 

O apoio é fundamental

A psicóloga ressalta também a necessidade de desconstruir a “romantização da maternidade”, desde o momento em que as mulheres descobrem a gravidez. Segundo ela, essa fase da vida exige habilidades que precisam ser desenvolvidas, assim como qualquer outra. “Primeiro precisamos desconstruir a ideia de que a maternidade é algo genuíno na mulher, aquela velha frase: ‘nasce um filho, nasce uma mãe’, isso não é verdade. Na maternidade as mulheres precisam desenvolver habilidades tanto quanto precisam para aprender a jogar futebol, e isso é tão difícil para elas quanto é para os homens. No entanto, como desde muito novas são ensinadas a se prepararem para isso, acabam por serem obrigadas a desenvolver essas habilidades mais rápido. Para além disso, o período gestacional e o puerpério são momentos de grandes mudanças na vida da mulher, principalmente hormonais, e isso acaba por acarretar grandes oscilações de humor”, argumenta.

Ela destaca mudanças físicas e de organização de vida que exigem o máximo de apoio para serem ajustadas. “Se essa busca se iniciar logo no período da gravidez, a equipe que faz o acompanhamento de pré-natal da mulher pode ser um primeiro apoio para conseguir entender quais demandas a mulher tem naquele momento e encaminhá-la para os locais mais indicados. Pensando na parte psicológica, aqui em Irati, contamos com um excelente serviço que é a Clínica Escola de Psicologia e Fonoaudiologia da Unicentro, que oferece muitos projetos para a questão da gravidez, maternidade, aleitamento materno e orientação parental”, orienta.

Transmissão de valores

Marici Aparecida Jonak destaca os valores que priorizou às filhas:  a importância do esforço e da educação. “Eu tentei mostrar pra elas que nada vem de graça. Se você não correr atrás, você não tem. E a questão do estudar eu sempre priorizei. Eu sempre coloquei para elas, se você estudar, você consegue chegar mais longe. Se você deixar o estudo para trás, você vai ficando para trás também. Isso por experiência própria, se eu tivesse continuado a estudar, talvez eu tivesse um emprego melhor, mas foi algo que ficou para trás, e por isso incentivei elas a ver que isso seria um diferencial na vida delas, no futuro”, relata.

Ela vê com orgulho o crescimento de suas filhas, uma já graduada e a outra prestes a concluir seus estudos universitários neste ano. Marici reconhece nelas características de dedicação e respeito pelo próximo, valores que sempre priorizou em sua educação.

E como conselho às novas mães que precisam cuidar dos filhos sozinhas, ela compartilha palavras de conforto e encorajamento. Não se desesperar. Eu sempre me apoiei em Deus, eu sempre rezei e não desisti. Às vezes o momento pode ser difícil, mas no final sempre vai ter um sorriso, um abraço, um carinho, um eu te amo, que é algo que não tem preço. [...] Às vezes o momento é difícil, mas não é para sempre”.

Por sua vez, Nathana avalia a maternidade solo como um desafio de equilibrar múltiplos papéis, mas ressalta que, apesar das dificuldades, sua maior fonte de felicidade e motivação são seus filhos. “Temos a nossa rotina, sobrecarrega bastante, porque você é a profissional, a provedora da casa, é mãe, é motorista, é babá, é tudo, e muitas vezes, eu me deixo de lado. Mas eu não me arrependo, porque a maior riqueza da minha vida, o meu maior alicerce, são os meus filhos”, finaliza.

Preconceito e estigma

A psicóloga clínica Paola Padilha dos Anjos Velozo destaca o estigma em torno da maternidade solo e o constante julgamento em todas as áreas de suas vidas por essa condição.

“Se tratando de estigma, nossa sociedade foi construída em cima de padrões machistas e patriarcais, dessa forma, mulheres são julgadas a todo momento e em todas as esferas de sua vida por exercerem a maternidade solo. Para citar apenas um exemplo da dimensão desse estigma, é justamente a dificuldade de mulheres terem acesso a um trabalho depois da maternidade. Dentro das entrevistas de emprego já é de praxe perguntas direcionadas ao público feminino que tenham relação com a maternidade: Tem filhos? Qual idade? Vão à escola? Quem cuida? Quando que nas entrevistas masculinas, isso não é uma preocupação. Dessa forma, seria ingênuo pensar que se existe tanto preconceito quando falamos em uma coisa relacionada à existência básica como trabalho, imaginarmos que não existiriam preconceitos ainda maiores aos outros aspectos da vida da mulher que podem ser considerados ‘menos importantes’ depois da maternidade, a exemplo, vida social”, observa.

Texto: Lenon Diego Gauron/Hoje Centro Su

Foto: Pexels

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